Letras de música sempre deram motivo a muita discussão. Seja com erros gramaticais ou obrigadas ao disfarce das entrelinhas, algumas são certeiras, emocionam, outras indecifráveis, incomodam, podendo tanto ser comparáveis à melhor poesia ou relegadas a meras rimas para as canções.
O assunto é vasto, como o mundo de Drummond.
Toda uma geração cantou “na madrugada a vitrola rolando um blues, trocando de biquíni sem parar”. Tentar convencer que o original é “tocando B.B. King sem parar” trata-se de luta inglória.
Ou ainda a discutível "hoje eu sei que quem me deu a idéia // de uma nova consciência e juventude / está em casa, guardado por Deus, com tanto fio dental”... Muito melhor que “contando o vil metal”.
E o Dirceu? Não o Zé. Quem não se lembra de Marina cantando “um homem pra chamar Dirceu (em vez de seu), nem que seja eu...”. Era inevitável.
Os puristas recordam da famosa canção na voz de Nelson Gonçalves "Eu amanheço// pensando em ti...// eu adormeço pensando em ti..." e rebelam-se com convicção, afinal, além da inútil compulsão pela amada, sabe-se que o verbo amanhecer é impessoal. Ninguém "amanhece". O dia é que amanhece.
Já o verbo adormecer é pessoal, e o verso está correto. Menos mal.
Ficou famoso o exemplo da letra do tremendão Erasmo: "mãe, não sou mais menino// você já fez a sua parte// e nos meus sonhos não estão você”. O sujeito do verbo estar é "você", logo, o verbo teria de vir no singular. A mãe é que não estava nos sonhos. Como diria Roberto, são só detalhes.
E tome de “beija eu”, "nasci há dez mil anos atrás" e congêneres. E não se diga ser exclusividade de Wandos e quejandos ("moça: sei que já não é pura, teu passado é tão forte, pode até machucar”. Aí, machucou: o correto: "moça: sei que já não és pura..."). Raulzito cantava que "o trem está chegando na estação", quando o certo seria "O trem está chegando à estação". Até Chico – o inatingível – escorrega no seu excepcional (a letra, não o guri) hino sobre a marginalidade infantil: "não era o momento dele (de ele) rebentar".
Para ficar nos exemplos dos ilustres, também Ary Barroso abusou do tautologismo no seu célebre “coqueiro que dá coco” (abacate é que não poderia) e Johnny Alf, no “que o inesperado faça uma surpresa” (se você esperasse não dava para ser surpreendido, né?). E por aí se vai, plantando com a mão ali e colhendo sal acolá.
Há também os propositais (espera-se) como o Roger, do Ultraje, parodiando Pelé, em “a gente não sabemos escolher presidente...” (Nos dias atuais, parece até premonição). Eles estavam certos: “a gente não sabemos mesmo nem tomar conta da gente e nem escovar os dente”, quanto mais votar...
Já Adoniran Barbosa está acima do bem e do mal. Todos os seus tiros tinham "álvaro" certo. Podem perguntar para o Arnesto, o Matogrosso e o Joca, sua poesia não ficava dando "vorta" em "lâmpidas".
Mas, o que falar dos recordistas? Lobão consegue, em dois versos curtos, cometer três erros gramaticais. Duvida? ”Aonde está você? // me telefona...”. De acordo com a norma culta, “aonde” só deve ser empregado com verbos que indiquem ação. E o uso acertado do pronome “me” é depois do verbo: telefona-me. Por fim, a concordância verbal: telefona é para tu, segunda pessoa. O correto é telefone ele ou você. Resumindo: “Onde está você? Telefone-me”.
Fica a questão, o que deve prevalecer: a língua ou a poética? Creio que o bom senso e o equilíbrio serão fundamentais, e o bom autor deverá ter conhecimento das duas áreas. Há erros gramaticais que não produzem nenhum efeito poético, ao passo que alguns escapes às regras não só são toleráveis, como, às vezes, necessários. É a tal licença poética.
Não se confunda com forçação de barra para produzir rimas baratas, como a que Jorge Vercillo cometeu: “Paralisa com seu olhar // Monalisa, deusa com ar de menina...me conduza... ou me usa...” (o certo seria: me use). Um caso inequívoco em que melhor era não rimar e acertar.
Sem contar com aquelas letras sem nenhum erro gramatical, mas impossíveis de se decifrar. São “zuns de besouro, ímãs, a paixão, puro afã, místico clã de sereia, castelo de areia, ira de tubarão”, ou “Ai, mina, aperta a minha mão, alá meu only you, no azul da estrela”, ou quiçá “meu treponema não é pálido nem viscoso, os meus gametas se agrupam no meu som...”.
Como diria Caetano, é tudo mais ou menos isso,...ou não.
Enfim, são pedras em demasia para atirar, e os telhados, na maioria dos casos, de vidro.
E no final, a gente somos mesmo uns inútil...
Copyright © 2001-2009 Alô Música
Todos os direitos reservados
publicado por HTDocs