Há alguns dias silencio, enquanto um turbilhão em minha cabeça procura entender a minha existência frente à música – que é o manancial de e para onde escorrem e me recarrego das energias – numa tentativa de entender um melhor significado para “Michael Jackson em minha vida”. Sim, ele esteve em grande parte da apropriação da minha consciência de vida, não somente em significado mítico, mas existencial. Sempre “estive” com ele, desde menino, quando não o identificava, a não ser com o nome de um grupo, mas exercido em si mesmo, enquanto talento, um grande artista.
O silêncio tenta fugir às declarações que considero “malditas” a respeito de um mito que chega a representar a vida contemporânea: a eterna criança da qual não desligamos nunca, que procuramos manter, e os conflitos de paradigmas advindos da questão da imagem do envelhecimento reversível, e os valores que fogem ao alcance de um senso “comum”, quando em outras épocas poderia ser referenciado, com princípios éticos e morais.
Há, claro, um caminho dito de “amadurecimento”, mas que é simplesmente uma adequação da criança às coisas que lhe são postas à frente e, sob tal realidade, sua responsabilidade pelas ações é mínima, tanto quanto dividida pelos diversos elementos que nos compõe a existência, entre crenças, ilusões, fantasias e encantamentos a respeito de qualquer das atividades humanas, de pronto conhecimento ou não.
Os “males” dirigidos a Michael Jackson bem cabem na estrutura da criação de perversidades, sob tais parâmetros sendo formadas as ciências psi – conforme Foucault, em História da Sexualidade - e, delas, derivando no surgimento de várias outras dimensões de “invenção das coisas”, como sugere o psicanalista Contardo Caligaris, ao dizer que a “adolescência é uma invenção dos anos 50”. Por concordar que o que é verdadeiro é algo absoluto que não enxerga os diversos elementos que compõe a complexidade dos objetos em julgo (como mentira, por outro lado). Acredito que MJ seja um ótimo exemplo para se entender o que é a humanidade frente às demandas industriais (como em si mesmo um objeto de consumo, em que ele se constrói), a tecnologia e o comportamento humano interagindo de forma mais dinâmica, compondo e destruindo, reformatando conceitos ainda abstratos demais, diante de nossa carência enorme de “uma verdade”. Aqui, acaba a dimensão pesquisadora que poderia fazer julgamentos sobre a realidade de Michael Jackson. Voltemos assim à grande história de “sua música em mim”.
Desde 5 anos ligado à música e a atenção à televisão, vi meus “bonequinhos” surgirem, tais como: os Tremendões (Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa), Elis Regina (feito eliscóptero), Tropicalistas (ainda em seu começo) e o grande festejo patriótico em torno dos festivais de música onde ainda vi a grande vaia ao Sabiá, em Tom Jobim, Chico Buarque e Quarteto em Cy; Caetano Veloso (É Proibido Proibir) – em plena dissensão com o plano político-ideológico, o que viria a dirigir boa parte do ser artista musical, confrontando as ironias ditatoriais -, Malcolm Roberts, com Love is All, pousando no país junto as novelas melosas, o que reforçava o senso da ideologia romântica em que tudo se guiava. A Motown, gravadora original da maioria dos grandes mitos da black music norte-americana dos 60 aos 70, com Jackson Five, Stevie Wonder, Diana Ross, The Temptations e tantos outros grandes talentos que fizeram história. Todos eles se configuravam pessoal e musicalmente como parte dos meus brinquedos. Adorava o desenho animado dos Jackson 5 !
Na transição para a adolescência, as trilhas sonoras internacionais das novelas encheram minha discoteca, quando Michael Jackson e Stevie Wonder vinham através das novelas Bandeira 2 e Selva de Pedra (primeira versão). Superwoman, Think of me as your soldier (Stevie Wonder), Remember me (Diana Ross) e Got to be there e Ain’t no sunshine (Michael Jackson) eram e são, ainda, hits imprescindíveis numa coleção. Não havendo um contato visual explícito, procurei pelas gravações da “mulher”, a criança Michael, que interpretava as canções com tamanha maturidade e propriedade. Eu ainda não sabia o que era isso, mas sentia.
Os hits posteriores de Jackson vieram em paralelo à minha adolescência, quando já se instalavam os “dancing days”, no que me satisfazia em continuar minha coleção de discos de novela – que creio ter feito parte de grandes coleções, dos adultos que hoje ainda festejam seus mitos.
Don’t Stop ‘till you get enough vem em Off the Wall, onde traz o pré-pós-adolescente em um estilo que demarcava uma transição entre a música da Motown, as baladas e os disco hits. Este período tem um significado especial, tanto para o artista como para o público, fã ou não: brasileiros ouvintes viam um anúncio de uma abertura política, relaxávamos um pouco ideologicamente, enquanto o artista começava a protestar-se em sua identidade (não era mais a figurinha simbólica de plena ludicidade e encanto musical, era um adolescente negro, em sua própria ludicidade em movimento). Com este, a exposição de sua imagem na era dos videoclips, com efeitos “fantásticos” e datados, roupas brilhantes, tais quais ABBA sugeriam em seu guarda-roupa, ótimos hits e questionamentos. “Não pare enquanto não tiver o bastante”, esta foi a premunição!
Thriller vem arrasadoramente, com vídeos maravilhosos, músicas pra lá de legais, arranjos moderníssimos por Quincy Jones, coreografias que todos queriam saber (e eram virtuoses em seu estilo único e na configuração de um ícone, uma imagem mais que impregnada, ele tornou-se sua logomarca, pelos movimentos de sua dança), e o menino negro em auto-questionamento, mas negro ainda (não sei se o politicamente é negro, preto ou o quê, é a pessoa). Um grande álbum que vendeu a valer, entorpeceu todas as cabeças dentro do boom musical-visual já em super-estima às necessidades da imagem. We are the world é um dos videoclipes mais apaixonantes, no clima em que os ídolos de todos se juntam para uma celebração romântica e revela a MJ o desejo maior de fazer algo pelo planeta. Bad já traz o início das experimentações infra-pessoais em que, em seu próprio corpo, Jackson torna-se o objeto das inquietações do artista, através da ciência, para se assemelhar a alguns de seus mitos, principalmente Diana Ross (que o apresentou à indústria fonográfica) e outros, mostrando uma grande insatisfação significativa de um tempo de remodelação do ser-imagem. Obviamente, sendo “o médico e o monstro”, nas melhores mãos certas que atenderiam seus redomoinhos existenciais, começou a virar branco e a ter aparência similar a todos os algos que o referenciam, desde os monstros da coreografia de Thriller às grandes amizades de “beleza perfeita”, como Brooke Shields, que acompanharam pessoalmente as necessidades de um ser em pleno fim de século XX, com toda a carga de modificações experimentais, do corpo, cabeça e música. O espetáculo estava cada vez mais estranhamente espetacular, como diz Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo, o artista a favor de uma re-idealização do próprio artista. Experiências musicais chegaram a estancar em favor deste novo espetáculo do homem frente ao espelho (Man in the mirror), em todas as possíveis modificações, insatisfações e baixos estados de autoestima, enquanto nada preenche o grande vazio existencial, senão as próprias vivências e a intensidade em que são vividas, a respeito do que existe – como fala Contardo Calligaris, como alternativa à “não-felicidade”. Michael Jackson ia perdendo sua identidade, ao mesmo tempo em que perdia a sua, ser e não ser ao mesmo tempo – está é a grande auto-investigação a respeito de sua identidade. Todos os seres são os mais solitários, como ele se dizia “o homem mais solitário do mundo”.
O homem só não foi vivido apenas por Michael Jackson, mas por todos os mitos que se festeja em todas as atividades humanas. Sendo da área mais instintiva, a musical, temos Elvis Presley, Jimmy Hendrix, Marylin Monroe, Janes Joplin, Kurt Cobain e tantos outros que, não citá-los, não fará diferença alguma, basta abrir a lembrança e uma observação um pouco sensível sobre a condição humana para ver que não somente os artistas vivem esta dor da solidão existencial indelével, imanente, ao que nos prestamos a experiências e artifícios enormes como forma de tentar mascarar, reformar, apagar os rastros dos indissociáveis, doloridos e necessários enfrentamentos em que cada um sabe “a dor e a delícia de ser o que é”. Nunca necessitamos tanto de uma prática social mais firmada em alteridade e generosidade do que nesta transição, sobre as anacrônicas normas éticas e morais – as que não pertencem ao século XXI, que mesmo por resistência tentemos preservar, vindas do passado, não são parâmetros de vida. Nossos questionamentos cresceram em quantidade, qualidade e “feitio de oração”. Michael, já perdido nas experiências a que se propôs, agora não se reconhecia nas formas mais amplas do desejo de ser “tantas alteridades”, suplantando os propósitos de Fernando Pessoa e seus heterônimos.
Michael Jackson é uma aventura musical, estética, comportamental, existencial, referência prioritária para uma grande análise, redimensionada pelos campos em que traçou. Essencialmente, uma aventura curiosa, em vários graus, em diversos momentos.
Apesar de me ver observando as nuances através de um mito musical, um amigo “invisível” e temporal, é através desta consciência de menino, a respeito do intocável a que expandimos nossas percepções, que tenho a cada música de Michael Jackson refletido como parâmetro de minha observação e exercício de vida.
Não tenho dúvidas sobre a legitimidade da comoção em torno da morte de Michael Jackson, nem deixo pra lá as fofocas que saem todos os dias, em todos os canais, a respeito dos motivos, da vida, dos parâmetros psicológicos e derivados. Ainda vejo os olhos brilhantes do primeiro álbum que comprei (Got to be there) e que é hoje cd e quem sabe vira blu-ray, em imagens descobertas? E, quem sabe, daqui há alguns anos, ele sai da geladeira que era seu desejo máximo de ser congelado para viver outra era da espécie humana.
Observando as fotografias de várias fases de sua carreira – que foi literalmente exposta ao mundo – fico me perguntando se a simulação que fizeram a respeito de como ele seria hoje, se esta imagem de um negro de firmes traços seria algo a ser consumível por alguém. Penso que ele não existiria logo após o álbum Thriller. Se nem a língua é possível de ser preservada e consumida em grande alcance, senão na original anglo-saxônica, quem seria Michael Jackson se tivesse seguido os passos “naturais” da formação de um ser?
A mim, vem uma consciência de conjecturas de que o espetáculo
não acabou. Don’t stop ‘till you get enough !
Julho de 2009
Érico Baymma é Artista em várias vertentes... Conheçam seus blogs:
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