Dono de uma das mais belas obras da música brasileira, Tibério Gaspar tem seu nome reconhecido em todo mundo através de músicas como "Samarina", "Teletema", "BR-3" e tantas outras que marcam nossa história. Vencedor de inúmeros Festivais, diretor e produtor musical, de televisão, publicitário e muito mais, nos concedeu entrevista exclusiva...
Solange Castro - Alô, Tibério - como você entrou para o universo da música?
Tibério Gaspar - Desde pequeno que eu sou ligado em música. Eu fui aquele tipo de garoto que segui as bandas, os blocos e ouvia muito rádio. Adoro Luiz Gonzaga, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, etc.
O fato também de ter sido filho único até aos 11 anos me aproximou bastante da música. Eu era muito tímido e um tanto solitário. Vai daí que uma das minhas prediletas diversões era cantarolar e inventar letras. Acho que foi por aí que o compositor e o poeta estavam ensaiando os primeiros passos.
Solange Castro - Você estudou música?
Tibério Gaspar - Sim. Na verdade eu aprendi a ler música sozinho. Foi no colégio nas aulas de canto. Sentava no piano de uma vizinha e buscava as relações entre as notas e o que estava escrito nos livros de música. Depois é que fui estudar um instrumento. Comecei com o acordeon. Depois andei namorando o violino que me abriu a cabeça para conhecer Mozart, Chopin, Bach, Debussy e outros. Melhorei meus conhecimentos estudando teoria com professor Lobato. Depois comecei a estudar violão. Mas tudo só para uso próprio. Antes de tudo acho que sou mais compositor. É por aí o meu aproach com a música. Melhor dizendo, acho que sou um bom arte-finalista, sacou?
Tenho a impressão que meus parceiros, meu ouvido e olhos bem abertos e a vontade férrea de querer saber mais, de perguntar humildemente como é que se faz e saber que quanto mais a gente sabe mais sabe que não sabe fazem você caminhar rapidamente no aprendizado. Tenho certeza que o auto ditatismo é que é o caminho sólido para o conhecimento. Porque é aí que você faz uma escolha e começa a perseverar.
Solange Castro - Sim... Quais são seus "mestres" na Música Brasileira?
Tibério Gaspar - Bebi muito em Luiz Gonzaga. Mas eu tenho quatro influências básicas que inclusive eu assinalo em meus shows. Como eu ia dizendo, são quatro as influências que recebi. Naturalmente a americana (muito Ray Charles, Little Richard, e alguns brancos); a música do interior (Luiz Gonzaga, Luiz Vieira, Jackson do Pandeiro, etc); a nossa MPB - principalmente a bossa nova, pontificada pelo maior compositor de todos os tempos, Tom Jobim, e pela música latina, recheada de boleros (Benvenito, Gatida, Gardel, e outros). Acho que bebi em todas essas fontes.
Solange Castro - E quando você começou a compor?
Tibério Gaspar - Eu me lembro que eu devia ter uns dez anos quando fiz uma musiquinha de natal. Mas é como eu lhe disse que cantarolava e inventava letras o tempo todo. Minha mãe dizia que não agüentava os meus "laraueiras"...
Solange Castro - Rs... E profissionalmente, quando foi sua estréia?
Tibério Gaspar - Nós tínhamos uma turma: Beth Carvalho, Arthur Verocai, Eduardo Conde, Paulinho Tapajós, Arnoldo Medeiros, Antônio Adolfo, Franklin da Flauta, Eduardo Melo e Souza, Luiz Cláudio Ramos e outros. Era sensacional porque ali nos exercitávamos a arte musical compondo, tocando e cantando. Foi com Antônio Adolfo que eu tive a primeira música gravada (Caminhada). Ela participou do II Festival Internacional nos idos de 67 - foi quando conheci o Milton Nascimento
Solange Castro - Quantas músicas você tem compostas?
Tibério Gaspar - Umas mil compostas e umas trezentas gravadas.
Solange Castro - Nossa - é um bocado de poesia... Você recebe os direitos autorais da tua obra de maneira justa?
Tibério Gaspar - Há, Há, Há... Aos trancos e barrancos.
Solange Castro - Mas com 300 músicas gravadas e tocando nas rádios como toca deverias receber o justo - como você vê a questão dos direitos autorais no Brasil?
Tibério Gaspar - Uma piada. Aqui o compositor tem que fazer no mínimo dois sucessos por ano (em cada seis meses) senão não segura a barra. A menos que ele faça uma carreira discográfica e realize shows como a maioria. Mas viver exclusivamente como compositor é praticamente impossível. E outra coisa, para você gravar com outros artistas é difícil. É uma luta fazer chegar nas mãos de intérprete a sua obra.
Muitas ele não escuta porque fica nas mãos de outras pessoas que, às vezes sem a permissão dos mesmos, põe na gaveta, entende?
Solange Castro - Sim, percebo isso acontecer... Mas mesmo as músicas já gravadas e que tocam deveriam te dar um "descanso" - Teletema, por exemplo, foi regravada e toca diariamente nas rádios - isso não te dá resposta financeira?
Tibério Gaspar - Infelizmente vem uma merreca. Na verdade, a maioria das rádios sonega o pagamento dos direitos. Pra você ter uma idéia até a pouco tempo o Canecão não pagava direito autoral. Isso durante anos. E vê se por causa disso deixou de apresentar espetáculos. E quem cantava lá? Não era Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque e todo mundo, enfim. Pois é. A lei existe só no papel. Falta consciência de classe. E é aí que essa turma da sonegação deita e rola. Já pensou se houvesse um boicote, uma greve geral? Ninguém toca porra nenhuma nem sobe no palco enquanto a coisa não ficar arrumada.
Solange Castro - Seria o máximo... Mas na verdade tem um time que não vai permitir isso nunca, sabemos disso...
Tibério Gaspar - Querida, quem ta com o boi na sombra não quer ir para o sol. Pra que? Porque? Apesar de estar sendo roubado faz vista grossa. Não quer arrumar encrenca com Rádio, Televisão, Gravadora e Editora. E é essa hidra de cinco cabeças que devora o fígado dos pequenos compositores que não estão articulados na mídia. É uma luta de David contra Golias. É muito duro você ver compositores de talento debandando pra outras profissões ou passando necessidades. Eu conheço muitos.
Solange Castro - Sim, eu também... Você acha que Gil poderia fazer alguma coisa? Ou deveria?...
Tibério Gaspar - Claro. Se tiver peito...
Solange Castro - Além de compositor você é produtor fonográfico - quantos discos você já produziu?
Tibério Gaspar - Foram poucos. Uns seis. Mas a verdade é que sempre tive um pé atrás com essas multi. Nunca fui chegado a vender a alma pra Satanás. Talvez seja um erro manter escrúpulos num país de espertos.
Solange Castro - Você gravou um disco recentemente - como foi essa produção?
Tibério Gaspar - Foi um presente que ganhei e devo em primeiro lugar agradecer a ELE que guia meus passos e ilumina meus dias. Depois a uma pessoa que eu não conhecia, chamado Dr. Sérgio Fernandes, que encantado com minhas músicas patrocinou toda a produção. E finalmente aos meus queridos parceiros, músicos, técnicos enfim uma penca de amigos que me estimam e admiram meu trabalho. Pude contar com participações históricas como Luiz Melodia, Zé Roberto Bertrami, Antônio Adolfo, Cristina Conrado, Regininha, Tavinho Bonfá e o sopro mágico do Serginho Trombone, do Bidinho e do Zé Carlros Bigorna. A base eu gravei com a rapaziada que se apresenta comigo - Antônio César, Marcos Tommazo, Julinho Brau, Chumbinho, Vitor Bertrami e Zé Leal. O Cylo de Toledo fez a capa e as fotos foram do Wagner Sant'Anna. Tudo foi feito com muito capricho.
O resultado está maravilhoso. Espero é contar com a divulgação boca a boca para que esse CD fique conhecido. E quem quiser falar com a gente é só ligar (21) 2531 - 9337 ou mandar um e-mail para tiberio_gaspar@ig.com.br ou tiberiogaspar@globo.com
Solange Castro - Um time de primeira... São músicas inéditas ou regravações?
Tibério Gaspar - Gravei 14 músicas - 10 inéditas e quatro releituras. As conhecidas foram "Sá Marina", "Juliana", "Teletema" e "Telhados do mundo". Mas estão bem diferentes. O Cd tem tudo um pouco sem virar uma salada, é claro. Mas fundamentalmente trata-se de um disco autoral.
Solange Castro - Deve estar lindo... E você está fazendo turnê?
Tibério Gaspar - Estou querendo fazer os SESCs de São Paulo (uns 50) e o Projeto Pixinguinha que está pra abrir. A luta é grande, So, porque não tenho um agente, um empresário ou uma produtora. Onde houver chance de me apresentar estou lá. Sozinho ou com banda. Estou lá.
Solange Castro - Eis corajoso, Tibério...
Tibério Gaspar - Fazer o que?
Solange Castro - Mas você não tem empresário por falta de profissional ou por opção tua?
Tibério Gaspar - Porque não apareceu ninguém até agora. Bem que eu queria...
Solange Castro - E quais os Projetos que você está trabalhando além do disco?
Tibério Gaspar - Tem um projeto muito legal que a gente esta super envolvido. Chama-se "Um Cantinho e um Violão". Basicamente é um show itinerante pelo nosso Estado com o intuito de descobrir e revelar novos talentos e alavancar a MÚSICA POPULAR CARIOCA. Nossa intenção é revelar poetas, instrumentistas, cantores, enfim pessoas de talento musical que não conseguem chegar na mídia. Estamos buscando apoio do Governo Estadual e dos Municípios do Rio de Janeiro para a realização do mesmo. A coisa ta indo. Mas com você sabe o ano só começa agora em março.
Solange Castro - Sim... É um Projeto bastante interessante... Vocês estão buscando Patrocínio além de apoio junto ao Governo?
Tibério Gaspar - Exatamente. Mas como o ano é político pode ser interessante unir o útil ao agradável. Não acho legal depender exclusivamente de um de outro. De repente é mais estratégico unir um com o outro, sacou?
Solange Castro - Sim, é uma boa estratégia... Esse Projeto é como um mini "Projeto Pixinguinha", seria isso?
Tibério Gaspar - Mais ou menos... Na verdade difere um pouco no formato e na intenção...
Solange Castro - Mais algum projeto à vista?
Tibério Gaspar - Vários. Estou terminando um livro de contos e crônicas e um outro de poesias. Depois quero escrever um livro infantil. Estou também tentando viabilizar um song book. Quero realizar um CD com as melhores músicas da dupla Antônio Adolfo & Tibério Gaspar interpretadas por grandes nomes da nossa MPB e entrar no estúdio para registrar um novo disco. Quero trazer para o conhecimento público algumas faixas inéditas gravadas pela Brazuca que estavam esquecidas nas prateleiras de alguns estúdios acompanhadas de fotos, depoimentos e relatos sobre o conjunto. Além do mais vamos fazendo alguns shows pelo Brasil afora e outras surpresas pelo caminho. Uffa ! Haja fôlego, né? Mas com a proteção do SENHOR JESUS nada é difícil... É só começar...
Solange Castro - Ok, Tibério - obrigada por essa gostosa conversa...
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