Entrevista

Rita Ribeiro

05/10/2009 - Por: Aloizio Jordão

Alô Música - Em primeiro lugar, gostaria de saber como a música entrou na sua vida - a partir de quê que descobriu a música e como ela se apresentou pra você...

Rita Ribeiro - A música se apresentou pelo meu "gen", pela minha família... Meu pai era músico, vindo de uma família de músicos. Não eram músicos profissionais, mas durante um período no interior, que eu sei da história, tinham uma banda de pau e corda, ele tocava bandolim, cavaquinho, violão... Eu acho que veio um pouco de ser essa história de uma família de figuras ligadas à música - meus tios e meus pais eram muito envolvidos com isso. Eu vim descobrir música quando já estava no segundo grau, eu estudava na Escola Técnica do Maranhão, tinha quinze anos, e eu mesma resolvi me dar de presente uma matrícula na Escola de Música do Estado do Maranhão. Eu tinha uma coisa em mim relacionada à música que eu não sabia direito o que era, e a partir desse curso de música na Escola de Música do Maranhão é que eu comecei a me interar mais e acabei entrando em grupos vocais, corais da Escola, para estar junto das pessoas que cantavam músicas a quatro vozes... Foi uma coisa meio batalhada, mas ao mesmo tempo descontraída, foram surgindo oportunidades, eu fui me envolvendo com a cultura do Maranhão, fui me interessando pela música, estudando a parte teórica... São Luís nessa época era bastante deficiente no sentido de oferecer oportunidades de música pra gente, porque não tinha faculdade de música, a Escola de Música era estadual e ficava a mercê da política local, enfim, eu me considero muito cria da rua, da música criada e construída na rua. Um pouco autodidata, porque não tinha muito recurso, e começou a surgir, a tomar conta.

Paralelamente eu fiz faculdades "normais", assim, fiz faculdade de enfermagem, na tentativa de seguir uma carreira por desejo da família, mas eu fui vendo que a música, a arte, estava presente, cada vez mais constante na minha história, e aquilo me tornando bastante o pensamento, até que quando foi por volta dos meus vinte anos de idade eu fui fazer um show, meu primeiro show solo na Bahia, já havia participado de Festivais, de música no Maranhão, grupos de dança, e aí resolvi encarar o palco como cantora solo, e fiz meu primeiro show chamado "Cunhã", em 89, foi quando eu realmente me lancei no mercado maranhense como solista...

A partir daí, quando eu coloquei o pé no palco com a minha banda e com os arranjos que eu tinha na mente foi que eu percebi que aquilo era realmente a minha história, que era o que eu queria realmente fazer...

Alô Música - E as influências, o que você ouvia nessa época?

Rita Ribeiro - Eu ouvia de tudo, porque o rádio para nós sempre foi o sol na nossa história, a família era de poucos recursos, a gente não tinha cultura de comprar muitos discos, então rádio era o que chegava primeiro. E como tenho uma família muito grande, nós somos onze irmãos e cada um com sua referência e gosto musical, eu ouvia o que meus irmãos ouviam, o que meu pai tocava e mostrava pra gente, então era uma miscelânea de informações... Eu não me lembro de nada na minha vida "determinante", principalmente em termos de cantora. Eu nunca tive assim: "ah! aquela cantora foi quem determinou minha história..." Não, quem determinou foi a própria paixão pela música e pela arte, principalmente pela cultura popular - eu sempre fui muito envolvida com a questão da cultura local, com as influências do índio, do negro, dos batuques, das ladainhas,... Samba de crioula, bumba meu boi... Eu sempre tive essa fascinação pela cultura popular, dança folclórica... As referências foram várias - desde Tropicália, Jovem Guarda, música dita "brega", que chegava pra gente através do Rádio - Benito de Paula, Marcio Greyck (depois eu vim a gravar Marcio Greyck), então eu ouvia de tudo e eu morava na periferia. Então mais ainda eu misturava - o Carimbo do Pará, as referências do Reggae, do Caribe, São Luiz é mesmo quase uma Jamaica brasileira, porque realmente a história do Reggae lá é muito forte, enfim, várias influências.

Os antigos cantores, Nelson Gonçalves, Elizete Cardoso, mas nada assim fixo, tudo muito "quadros" acontecendo e você absorvendo... E eu tinha muita consciência musical desde pequenininha, eu fui pega aos 15 anos, quando eu quis estudar música, entrei pros corais e comecei a me envolver com a parte musical dos maranhenses, fui ser vocalista de compositores maranhenses, fui participar de Festivais, e aí são milhões de coisas de referências na minha história musical...

Alô Música - E dessa trajetória toda até você gravar o primeiro disco, quem descobriu a Rita Ribeiro?

Rita Ribeiro - A Rita mesmo - rs... Não houve assim quem descobrisse o que houve foi uma construção, como até hoje acontece, uma conjunção de fatores, de pessoas, de parceiros, amigos que pensavam junto... Um desses amigos que logo de imediato se identificou comigo e eu com ele é o Zeca Baleiro, que já conhecia o Maranhão mesmo antes de ser o "Baleiro", era só o "Zeca", e foi um compositor que eu me identifiquei imediatamente e ele se identificou com a cantora, e então a gente criou um elo musical muito forte... Mas não existiu ninguém que viesse e dissesse: "Ah! você é o fenômeno e vai acontecer..." Não, na verdade o que houve foi muita luta, muita vontade, até muitas vezes entremeados de dúvidas, de inseguranças, porque deixar a faculdade e querer ser cantora no meio-norte, longe dos centros urbanos, onde se concentrava toda parte artística, então ficava tudo muito longe, até para você ter os discos que queria ouvir era muito difícil. Mas quando você tem um objetivo na vida, você vai ali e vai costurando as histórias e os elementos vão convergindo para que aquela coisa aconteça, pelo menos comigo sempre foi assim... Até hoje, eu fui descobrindo que era cantora, que era essa a minha história, fui descobrindo que gostava de fazer isso e que eu tinha capacidade para fazer...

Alô Música - Fala um pouco dos álbuns, de toda tua discografia, de todo teu trabalho até essa indicação para o Grammy que você teve.

Rita Ribeiro - Olha, quando eu fiz o "Cunhã", meu primeiro show solo lá no Maranhão, eu decidi que tinha que correr de casa, tinha que cair na estrada, eu precisava ter parâmetros do que estava fazendo, precisava estudar - você sabe que eu casei com um jornalista paulistano, Sergio Castelani, que estava querendo voltar para São Paulo e me convidou e acabei indo com ele.

A partir daí comecei a trabalhar minha carreira em São Paulo já de cantora, focando nesse objetivo, e fiquei até 95 batalhando em bares, captando projeto nas Prefeituras, no Estado de São Paulo, conhecendo pessoas Chico Cesar, que faziam arte, e foi aí que resolvi fazer meu primeiro disco e chamei o Zeca Baleiro para produzir, e foi aí que eu vi que não teria como viabilizar sozinha e resolvi apresentar na gravadora "Velas", que era bastante forte no mercado, do Victor Martins e Ivan Lins, com um quadro artístico maravilhoso, e eles ouviram meu projeto, se interessaram, e foi aí que gravei meu primeiro disco, o "Rita Ribeiro", que foi um grande cartão de visitas na minha carreira. Acho que é o disco mais ensolarado que eu tenho, foi assim uma entrada com o pé direito, um disco que me deixa feliz até hoje ao ouvir, pelo contexto, as canções escolhidas, do tempo que foi elaborado para que ele acontecesse, enfim... Então, esse disco abriu as portas. Entrei nas rádios do Brasil, principalmente em São Paulo, fiquei conhecida no meio artístico, abriu a possibilidade para fazer contrato com outra gravadora, que é do Marco Mazzolla, a MZA Music, e aí fiz meu segundo disco. Fiz o primeiro disco em 97, o segundo em 99, que é o "Pérola dos Povos", e em 2001 eu fiz o "Comigo", também pela MZA. O "Pérola dos povos" é quase uma continuação do "Rita Ribeiro", como se mudando de gravadora eu quisesse dar uma ampliada, penetrar mais no mercado com a mesma proposta do primeiro disco. E nesse disco eu tive várias surpresas, uma delas foi ter fechado contrato de distribuição com uma gravadora americana, a Putomayo World music, uma gravadora que distribui world music para o mundo inteiro, mais de sessenta países, um cara com um projeto super interessante, ele curtiu meu trabalho, resolveu lançar meu disco Pérola dos Povos mundialmente, á partir daí ele mesmo resolveu inscrever meu disco no Grammy - não existia ainda o Grammy Latino, só o mundial, e aí eu fui indicada como melhor disco de pop rock, classificação interessante, e o grande João Gilberto concorria também e ganhou. Pra mim aquilo já foi uma premiação, porque se você pensar na quantidade de cantoras que existem no mundo, como Shakiras e Christinas Aguileras da vida, e você estar ali, para mim já é um prêmio, já estou localizada, as pessoas estão me ouvindo, estão sabendo de mim...

Então foi a maior surpresa, fui ao Festival de Montreux na Suíça, numa noite brasileira com Milton Nascimento, Ney Matogrosso - eu, Zeca Baleiro e o Chico César. E foi também um presente, pois é um Festival super conceituado mundialmente. Nesse mesmo ano eu fui para Caracas, na Venezuela, a convite de um programa de rádio chamado "Contato Brasil", no Teatro Municipal de Caracas, lotado, as pessoas conheciam minha música, já tocava em bares, e aquilo foi muito bom para mim... Então foi como eu te falei, as oportunidades vão abrindo, as pessoas vão surgindo... Aí surgiu a oportunidade de fazer meu terceiro disco, "Comigo", também pela MZA, mas com distribuição da Abril Music, uma gravadora que teve um "boom" muito forte no mercado e o meu foi o primeiro disco da MZA a ser distribuído pela Abril Music. Aí houve todo um planejamento de marketing muito bom para o lançamento desse disco - a música "Contra o tempo" do Vander Lee teve uma repercussão nacional muito grande, tocou em várias paradas de sucesso de rádio, para mim foi uma conquista, abriu mais ainda meu espaço no mercado. Mas isso tudo de forma paulatina, não sou uma artista que vende milhões de discos , não tenho essa característica popularesca, mas eu tenho um segmento que à medida que eu vou fazendo vai crescendo... Acho isso extremamente saudável porque os artistas que eu admiro e que tenho identificação são artistas de catálogo, que se mantêm até hoje no mercado com uma estrutura "aparentemente" pequena mas que têm uma coisa conquistada. Se você elimina aqueles que vendem milhões, eles estarão lá com cinquenta, sessenta mil discos vendidos. E o tempo tem provado isso com todo esse caos que o mercado fonográfico tem vivido.

E por fim veio o "Tecnomacumba", num período de entressafra, que eu havia abandonado as gravadoras, estava independente, queria desenvolver esse projeto já há muito tempo, só que o Tecnomacumba surgiu com a gravação da "Cabocla Jurema", um "ponto" que eu recolhi de um terreiro de umbanda no Maranhão, que eu gravei no meu primeiro disco, que eu já fazia essa fusão dos sons tambores de umbanda maranhense, com a "Disco Music", e a música eletrônica nem estava com esse boom todo, e para explicar o processo eu criei o termo "Tecnomacumba", porque a imprensa insistia em saber o que era aquilo, e é isso, sons dos tambores com processamento de som...

Acho que foi aí que ampliou mais ainda meu público, minha penetração no mercado fonográfico, estabeleceu mais minha figura artística no mercado...

Alô Música - Como é que você vê o momento da música popular brasileira no mercado? A "Tecnomacumba" está tocando nas rádios? Qual tua relação com esse mercado?

Rita Ribeiro - Acho que o mercado ainda está muito preso a padrões pré-estabelecidos, a gente está começando a desfazer os nós, começando a ter uma visão mais abrangente, mais ampla, do que é a música como uma entidade de força poderosa, transformadora, que não é de domínio de ninguém, apesar de cada um ter os seus direitos sobre ela. Quando surgiu esse caos fonográfico, eu achei positivo - por mais que isso causasse dificuldades para muitos artistas, porque muitos autores foram prejudicados e ainda são por conta de pirataria, etc., mas como uma forma também de se rever a sua relação de trabalho com seu parceiro - no caso as gravadoras e empresas - ver outros caminhos, outras possibilidades de divulgação. Quantos artistas novos estavam na fila de espera para que um agente de gravadora pudesse dizer sim ou não para eles, sendo que agora eles podem viabilizar os trabalhos deles através de outros mecanismos que a própria Internet possibilita, que é uma coisa para o bem ou para o mal, mas tudo é assim tem seu lado negativo e positivo para ser balanceado. Então eu acho que ainda estamos muito presos a isso, tocar numa rádio hoje ainda requer muitas negociações, muitos interesses financeiros, até porque as rádios também precisam se manter, mas ainda é tudo muito fechado. Eu tenho o privilégio com as rádios que se identificam com meu trabalho porque eu não pago jabá, eu sou independente, eu tenho um Selo que se chama Manaxica Produções, meu primeiro disco lançado por ele é o "Tecnomacumba" com distribuição pela "Biscoito Fino", que fez inicialmente uma negociação com as rádios para viabilização desse projeto, mas por um tempo extremamente curto, o que toca hoje é pela própria vontade do ouvinte, que pede, e pela sensibilidade de algum programador que sabe qual artista que tem um nicho de ouvintes da rádio que se interessam, por exemplo a MPB FM, posso falar aqui, que está sempre me tocando.

Isso é uma conquista que veio com um tempo de trabalho de divulgação, também de minha parceria com as gravadoras, como diz o ditado: "não posso cuspir no prato que comi", porque muito do que aconteceu comigo foi pela viabilização dos meus acordos com as gravadoras. Claro que os discos não são meus, são deles, eles têm lá as obras para o resto da vida, mas eu também tive um retorno positivo de divulgação e de ampliação do meu trabalho dentro do mercado, não só nacional como internacional. Então são coisas que você precisa ter muito pé no chão para não sair por aí falando mal da rádio, dizendo que não presta, não, acho que é uma coisa de se estabelecer uma relação mais transparente, mais madura com seu parceiro de trabalho, que pode ser uma gravadora ou uma empresa privada que se interesse em investir, e deixar isso bem claro para que seja interessante para mim e para quem está negociando comigo. Eu acredito nesse tipo de coisa, mas continuo fazendo meus discos por conta própria, ganho meu dinheiro através dos meus shows, quase não ganho dinheiro por vendas de discos porque os percentuais ainda são leoninos no sentido de realmente não nos dar as condições necessárias para que a gente viabilize outros trabalhos. O que me dá resultado são os meus shows, a partir daí faço investimentos, e parceiros que querem comigo investir, que têm uma visão da possibilidade do crescimento do trabalho e fazem investimento comigo.

Alô Música - E esse público fidelizado que você tem, quando você vai pro palco e vê aquele montão de afim do trabalho da Rita Ribeiro, dessa estética- podemos dizer que "Tecnomacumba" é uma nova estética dentro da música. Eu, pessoalmente, nunca tinha ouvido nada parecido com isso. Então como é que você vê isso? Você diz que se as rádios massificassem seu trabalho seria muito mais fácil inclusive. Então você acha que essa rede, que vai passando de um para o outro, é a partir de Internet, a partir de qual veículo, você atribui a quê?

Rita Ribeiro - Olha, o projeto tem seis anos, e um projeto de seis anos fala por ele mesmo. Claro que sou a figura central de toda essa idéia, idealizadora e tive várias dificuldades inicialmente no processo do trabalho, porque as pessoas são preconceituosas mesmo, um preconceito camuflado, o que é compreensível, não estou aqui para ficar condenando ninguém, mas o projeto teve muitas dificuldades até pelo próprio nome, porque o termo "macumba" é usado de forma pejorativa, ligadas a coisas do mal, de forma totalmente equivocada, que mostra o quanto estamos desinformados sobre a cultura brasileira. Essa negação da cultura africana e da referência africana na nossa cultura é ainda uma coisa que precisa ser lapidada, trabalhado, conquistado porque o negro é um elemento fundamental na nossa formação, isso é primário, está lá nas aulas, tem que ser colocado de forma clara, e o projeto se propõe a isso, sem ficar com aquele discurso panfletário, e acho que a música brasileira deve muito às religiões africanas, muitos beberam nessa fonte e bebem até hoje. Grandes compositores renomados como Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Benjor, Geraldo Pereira, Noel Rosa, são tantos que vivenciaram isso, porque vivemos isso dia-a-dia, a música africana está na nossa história, na nossa culinária, nossa indumentária, na nossa música principalmente, junto com a cultura ameríndia, cultura dos nossos índios, enfim, acho que por ser uma cultura assim "escravizada", foram cem anos de escravidão, e o Brasil um país jovem, ainda sem bem ter um entendimento de si mesmo, na minha opinião precisamos ainda amadurecer muito sobre vários aspectos da nossa história. Então eu quis trazer com o projeto isso à tona, e pensei em manter o nome, porque muita gente sugeriu que eu mudasse, que fizesse subtítulo, e até criei, para justificar o que não tinha justificativa porque era na cara, na lata. Tive conflitos com tribos da MPB, que achavam que aquilo que eu estava fazendo não era "música popular brasileira", e com o povo da música eletrônica, porque de repente surgiu a eletrônica no meio dessa história toda, se achando o auge da modernidade, também diziam que aquilo não era "música eletrônica", e eu dizia: "gente, vocês estão muito preocupados em rotular", eu acho muito pequeno querer rotular, acho que é muito mais amplo, não estou preocupada com isso, pelo contrário, quero misturar mais ainda, quero fundir, como diz o Tom Zé ... "Estou te cutucando para te confundir, estou te confundindo para te esclarecer", uma coisa nesse sentido, eu me sentia revitalizada cada vez que tinha uma dificuldade, porque aí eu dizia: "bom, então estou no caminho certo". Não que eu fique procurando dar murro em ponta de faca, eu espero que haja entendimento e compreensão do trabalho. Eu sabia que uma hora iriam entender, porque quem entendeu de imediato foi o público. O empresário não entendeu, o divulgador da rádio não entendeu, com exceções, o diretor da gravadora não entendeu, achou que eu estava retrógada ou xiita, então muitas pessoas não entenderam, mas o público, que era quem me interessava, entendeu de imediato, e principalmente o público carioca. Eu não poderia ter feito esse projeto em outro lugar de forma tão transparente e direta se não fosse aqui no Rio de Janeiro. Porque o público é macumbeiro mesmo, e macumbeiro dos bons - vivenciam a história, têm respeito pelas Entidades, com toda a magia, com o ritual do Candomblé e da Umbanda, o povo herdou isso da Bahia, e o baiano também entendeu - Tecnomacumba na Bahia é uma loucura. Então o que eu quis eu atingi, foram três anos e meio no Teatro Rival de quinze em quinze dias, com convidados, fui criando uma legião de fãs, um povo que não é fã é fiel e aí todo mundo cantando junto, então foi um ensaio coletivo de três anos, com muito trabalho e dedicação, algumas pessoas ficaram com medo que eu ficasse totalmente taxada pelo "Tecnomacumba", e isso nunca me preocupou, porque eu tenho uma visão ampla da música, então eu sei que tenho milhões de possibilidades de trabalhar com música, desde voltar aos meus discos de baladas, funks e reggaes, até partir para um projeto novo, como tenho outros projetos, eu não me preocupo com isso.

A marca "Tecnomacumba" é minha - não só na criação do projeto, mas tenho a marca criada, porque eu já vi isso até em sites americanos, como "gênero". E desde quando "tecnomacumba" é gênero? Até então não existia isso, entende? Como Caetano escreveu, é uma história que ainda vai se falar mais adiante, então o que me cabe é criar, fazer, realizar, acreditar, e deixar o tempo se encarregar do que vai ser.

Alô Música - Maravilha. E "Três meninas do Brasil"?

Rita Ribeiro - É um projeto que surgiu como o "Tecnomacumba", como "Suburbano coração", que eu pretendo que seja meu quinto disco. "Três meninas do Brasil" surgiu de um desejo meu e de Tereza Cristina de compor, eu sou uma compositora de vez em quando estou achando uma dádiva, eu achei que jamais conseguiria fazer uma letra, mas começou a vir uma coisa ao meu ouvido e deixei acontecer. E a Tereza gosta muito de uma música minha: O Divino , parceria minha com Zeca Baleiro, e ela sempre achou que eu deveria fazer mais músicas, mas eu dizia: "Teresa, eu não tenho esse exercício constante, mas enquanto a gente não faz a nossa composição, porque a gente não faz um projeto?" E a minha produtora, que também é minha irmã, a Elza, disse que havia um Edital da Caixa Econômica que a gente poderia inscrever o projeto. Aí pensamos em fazer um projeto de samba, mas Tereza disse que já vivenciava do samba, e nessa discussão toda eu comecei a falar da canção "Meninas do Brasil", que era uma canção que meu pai cantava muito pra mim, e eu adorava essa frase: "Três meninas do Brasil, três corações democratas..." E aí até falei para a Tereza que isso daria um belo nome de show, e ela falou: "É, mas quem vai ser essa terceira menina?", e ela sugeriu o nome de Jussara Silveira que nós duas adoramos, temos grande identificação musical , e a partir daí surgiu a idéia, resolvemos abrir mais o repertório, do Maranhão, do Rio e da Bahia, achamos que deveríamos abrir o leque para todo Brasil, aí eu sugeri o nome do maestro Jaime Alem, que eu acho genial, apesar dele ficar restrito a trabalhar com Maria Bethania, eu acho ele um fenômeno, e arriscamos o convite e ele aceito, seria a "quarta menina", porque ele é quem dá o tom do trabalho, ele que faz arranjo, com o jeito a serenidade de ele lidar com a música brasileira, dar os timbres, montou uma banda super harmoniosa de cordas e percussões, enfim, ficaram lindos os arranjos e a concepção que ele fez.

Também tivemos o Jean Willys, que foi uma revelação pra gente, que fez a direção artística do projeto, ajudou muito na seleção do repertório, que é um cara que todo mundo conhece que é um professor de literatura, é jornalista, profundo conhecedor de música brasileira, alucinado por cantoras, então surgiu e que conseguiu junto com a gente formatar a história toda. Então foi um projeto que começou quase que vitorioso, porque quando a gente estreou pelo edital da Caixa, no Nelson Rodrigues, foi um estouro, e nós perguntamos: "e agora?" Não vamos fazer shows, vamos gravar em áudio e vídeo e vamos ver o que conseguimos nas gravadoras. Como o Maestro é muito próximo de Bethania, e ela tem um Selo, a primeira com quem pensamos em viabilizar foi com a Quitanda ou com a Biscoito Fino. A Bethania ouviu, adorou e deu o ok, e gravamos em 2008 no Teatro Municipal de Niterói, o CD e o DVD.

Alô Música - Muito bom... E o próximo passo?

Rita Ribeiro - Olha, tem várias possibilidades. Ultimamente, por conta de ser totalmente independente, eu me desliguei completamente dessa fórmula pré-determinada de ter que gravar um disco por ano, ter disco de carreira.. Por exemplo, eu não estava preparada para fazer o DVD "Tecnomacumba" agora, estava encaminhada para fazer o "Suburbano coração", que será meu quinto disco, um projeto totalmente diferente do "Tecnomacumba", voltado pra baladas, que tem uma formação mais acústica, voltada para a cantora mesmo, voz, instrumentos de cordas, principalmente o violão, enfim, queria mesmo fazer uma outra história, e por conta disso comecei a fazer uns shows e o público só queria saber de "Tecnomacumba", e eu dizia: "não estou agradando mais não...", e o povo perguntando quando ia sair o DVD, e foi quando eu bati o martelo para minha empresária, Elza, que é minha irmã, porque havia alguma coisa que a gente havia deixado de fazer, o DVD, que era a idéia original do Projeto. Aí eu suspendi o "Suburbano" e viabilizei o "Tecnomacumba"...

A idéia agora é retomar o "Suburbano" mais para o final do ano ou início de outro, já que o "Tecnomacumba" sai em Outubro...

Eu nunca deixei de fazer um show, e o mais interessante é que as pessoas querem. Antes eu investia para fazer um show, agora as pessoas compram o show... Eu tenho projeto de levar esse show para fora do Brasil, que eu acho que está chegando a hora, ele tem um perfil de brasilidade muito forte, tem essa coisa panfletária de Brasil, ele tem essa coisa forte, que já tinha nos meus outros trabalhos, mas ele concentrou mais toda essa mistura de ritmos, de gêneros, enfim, eu acho que ele vai criar um grande impacto fora do Brasil...

Paralelamente eu vou desenvolvendo o "Suburbano Coração", chamei o Celso Fonseca para ser o diretor musical, a idéia é fazer uma formação “básica”, convidar grandes músicos que eu admiro no Brasil, que tenho certeza que vão querer participar, mas é também uma coisa que eu vou deixando acontecer.. Eu to ligada, pensando no repertório, na estética, mas eu vou no remanso da maré...

Tem também um projeto genial, que sou louca para realizar, que é "As rosas eram todas amarelas", que é o título de uma música de Jorge Ben Jor. Eu sempre gravei Ben Jor , desde meu primeiro disco, gravei "O vendedor de bananas", "Galileu da Galiléia", eu fui gravando Jorge Ben Jor, mostrei o esboço desse projeto e ele adorou, mas nunca tive oportunidade de fazer, e pode até vir antes do "Suburbano", não posso te afirmar, porque projetos não faltam...

Mas eu tenho o pé no chão - não é fácil viabilizar um projeto, colocar um show no palco, às vezes são importantes as parcerias - eu tive parceria na gravação desse DVD com o Canal Brasil, que hoje tem um respaldo muito grande dentro da televisão brasileira, porque só põe a coisas artísticas, de qualidade da cultura do Brasil, e achei maravilhoso fazer essa parceria com eles... Acho importantes essas parcerias para realizar outros projetos.

Alô Música - Maravilha! E nós certamente estaremos aqui para cobrir isso tudo, o Alô Música tem esse compromisso, de difundir a boa música. Nós entendemos que existe no mercado uma lacuna muito grande nessa questão fonográfica em relação às rádios, à execução, e toda dificuldade que o artista enfrenta. Então nós queremos ser um instrumento que possa viabilizar e ajudar de alguma maneira essas boas idéias, esses bons trabalhos, e desde já agradecemos a você pela gentil entrevista, foi maravilhosa... Eu vi o show e quem não viu perdeu...

Rita Ribeiro - E ainda vamos ter o show de lançamento do DVD...

Eu queria aproveitar, estamos falando de parceiros que envolvem empresas, gravadoras, etc., envolvem também parceiros na Internet, sites que fazem divulgação, os canais todos que temos para poder viabilizar essa troca de informações. Um artista hoje lá no Japão poder acessar a obra dele em questão de segundos, e se você não pode pagar pode ter acesso a essa obra se ele permitir, e isso é tão mágico que se você puder ter uma visão mais ampla, eu sempre penso na música assim como uma entidade que já encheu o saco desse domínio absoluto dela, e não é por aí o caminho... Vamos ganhar, todo mundo precisa viver, trabalhar, viabilizar suas histórias, mas também vamos possibilitar a criatividade, a criação, porque isso é obra divina, e é direito de todos, então podemos entrar num consenso disso. Eu acho que a Internet, que todo mundo fala que serve ao mesmo tempo a Deus e ao diabo, na verdade é mais um momento de transformação, mais um momento da reavaliação de tudo que se tem pensado e feito, tudo que diz respeito à arte e à informação . Então para o bem e para o mal ela está aí para quem souber usá-la da melhor maneira ... Então, sites como o Alô Música e outros, que só divulgam, estão atentos ao que está sendo produzido, não somente a quem está no mercado já estabelecido, mas principalmente para pessoas que querem viabilizar seus trabalhos e precisam de uma oportunidade para isso...

Esses também são meus "parceiros", são "Entidades" que eu cultuo e com que de alguma maneira, dentro das minhas possibilidades, estou sempre antenada e conectada...

Alô Música - Maravilha! Obrigado pela entrevista...

Rita Ribeiro - Obrigada, meu querido, foi um prazer... Um grande beijo para todos do Alô Música...

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