Entrevista com o escritor, poeta, jornalista, crítico e produtor musical paraibano Ricardo Anísio
Madan - Ricardo Anísio, você é Escritor, Poeta, Jornalista, Crítico e Produtor Musical. Como você concilia todos estes talentos e dons?
Ricardo Anísio - Não me imagino tão talentoso e nem dotado de dons especiais. É fácil conciliar essas facetas às quais você se refere. Sou jornalista e um apaixonado por música, então escolhi ser crítico de música. Essa mesma paixão me levou a ser escritor, mas escrevo apenas livros sobre música. Sou produtor movido também pela música, e poeta porque comecei a me interessar pelas letras de Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Bob Dylan e Chico Buarque.
Madan - Quando surgiu este seu interesse pela música, arte, cultura, etc.?
Ricardo Anísio - Desde os 15 anos de idade, quando fui apresentado a Geraldo Vandré. Ele nasceu na mesma rua em que moravam familiares meus (Av. Almirante Barroso, centro de João Pessoa), e ele me despertou para a música. Em seguida fiquei amigo de Vital Farias, Zé Ramalho, Cátia de França... E aí não tinha como não me apaixonar pela música. Em 1978 comecei a escrever sobre artes no jornal Correio da Paraíba, foi quando percebi que não tinha mais “cura” (risos).
Madan - Como escritor e poeta, quantos livros você já lançou e, por quais editoras?
Ricardo Anísio - Tenho 5 livros lançados, sendo 4 de poemas e um sobre Música, o “MPB de A a Z”, todos lançados pela Editora Idéia, da Paraíba mesmo. Ainda não encontrei o mapa com o caminho para ser notado por uma editora de porte nacional. Mas acho que tudo tem sua hora, ou não tem hora nenhuma. Não me agonio com isso. Faço aquilo que me alimenta a paixão e que, de certa forma, contribui para o debate cultural.
Madan - Como poeta, quais são suas influências e autores preferidos?
Ricardo Anísio - Fui tocado muito cedo, aos 13 anos, pela poesia de Adalgisa Néri, pelo livro “Ocasos de Sangue”, mas hoje esse livro não me toca mais tanto. As canções de Bob Dylan, em particular a fenomenal “A Hard Rain’s a-Gonna Fall”, que tem um poema profundo e escrito com rara erudição, também me marcaram. Depois li Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto, Hilda Hilst, Mário Quintana, Dylan Thomas, Baudellaire, Camões e Castro Alves.
Madan - O nosso querido e saudoso Poeta José Paulo Paes, acho que quis brincar e num livro dele de crônicas, usou com sub-título a seguinte frase: A Poesia está morta, mas juro que não fui eu. Você acha que a poesia está morta?
Ricardo Anísio - A poesia só morrerá um dia, se a raça humana for extinta; mesmo assim restarão as imagens poéticas da natureza e as metáforas de todas as coisas sagradas. A vida é um poema. A morte também. Os versos voam pelos ares, navegam mares, desabrocham em canteiros. Nem imagino a poesia morta. Na verdade creio que ela nunca morrerá.
Madan - Parece-me que quando leio Filosofia, a Poesia fica “menor” quanto à ela. O que você poderia comentar sobre isso?
Ricardo Anísio - Isso depende dos filósofos que você está lendo, e dos poetas também. Existem poetas que são verdadeiros filósofos, podemos citar Dante Alighieri. Mas existem muitos outros que filosofam e fazem poemas. Existem filósofos que ficaram ultrapassados. Hoje já se discute muito sobre a obra socrática e o platonismo. Sem contar que a filosofia estancou em Platão e Sócrates, e a poesia se renova todo dia. São coisas distintas, nem maior e nem menor. É como comparar Chico Buarque e Elomar, ou Pixinguinha e Egberto Gismonti.
Madan - Qual e quais são seus poemas preferidos, seus e de outros Poetas?
Ricardo Anísio - Não conseguiria dizer um poema, mas direi um livro: “Eu”, do meu conterrâneo Augusto dos Anjos. Este paraibano inventou algo que jamais será ultrapassado, e que se fez mais impactante do que qualquer outro livro que li em minha vida. Minha poesia é meio “augustiniana”, meio do caos, da dor, das entranhas.
Madan - Uma talvez não muito recente discussão: letra de música pode ser poesia e poesia pode ser letra de música?
Ricardo Anísio - Eu não discuto se pode ou não pode. Eu tenho convicção que pode. O que é importante é admitir que são coisas distintas, sem dúvida. A maioria esmagadora das letras da MPB, se lidas, não teriam força em um livro. E muitos poemas, pela complexidade e pela métrica etc, não caberiam em canções. Mas há letras de canções que vivem sem a melodia, e poemas que caem como uma luva nas canções. Mas nem sempre um letrista pode ser considerado poeta.
Madan - Você tem um poeta preferido brasileiro e um mundial ou um para os dois?
Ricardo Anísio - No Brasil, Augusto dos Anjos. No mundo, Camões.
Madan - Quais os próximos lançamentos previstos em livros?
Ricardo Anísio - Lanço este ano o livro de poemas “Canção do Caos”, e em 2007 estarei colocando no mercado “Canções Que Marcaram a MPB”. Fiz uma lista de canções mais belas e mais importantes, e vou comentá-las, falar sobre seus momentos, sua temática e tudo que a cerca.
Madan - Como jornalista e crítico musical, você já trabalhou em diversos jornais e revistas. Você poderia citar alguns e em qual veículo da mídia está trabalhando atualmente?
Ricardo Anísio - Trabalhei nos jornais: Correio da Paraíba, O Norte, A União, O Momento e ContraPonto. Atuei em emissoras de rádio como a FM O Norte, FM Tambaú, Tabajara AM, FM Correio Classe A. Atualmente escrevo uma coluna para o jornal O Norte e outra para a revista A Semana.
Madan - Seu livro “MPB de A a Z”, onde você publicou críticas musicais, resenhas e entrevistas, sobre e com vários artistas da MPB, gerou muita polêmica? Pois – principalmente – sua visão da Bossa Nova e da Tropicália – vai “contra a corrente” do que a gente escutou e escuta a cerca destes dois movimentos. Você pode nos falar sobre isso?
Ricardo Anísio - Bossa Nova? O que é isso? Conheço aquele samba anêmico e burguês que quis se separar dos grandes negros como Nelson Sargento, Candeia, Clementina de Jesus, Sinhô, Nei Lopes, Wilson Moreira, Geraldo Pereira e Wilson Batista. As harmonias que vieram desta tal New Boss (que fazia mais questão de ser jazz) viriam a qualquer momento. João Gilberto não é cantor...Enfim, é muita mentira junta. Tropicália? Não seria Tropicalha? Ali não existia música, apesar de Rogério Duprat; era uma encenação de imitadores do rock psicodélico da Califórnia. Não precisávamos disso.
Madan - Temos a Velha Guarda, o samba, o chorinho, o baião, a bossa nova, o tropicalismo, a Jovem Guarda, o pessoal do nordeste, o Clube da Esquina, o BRock, o Mange Beat, o Forró Universitário e ultimamente a Nova MPB ( batizada pela gravadora Trama e divulgada pela rádio Nova Brasil FM ). Você poderia comentar esses movimentos?
Ricardo Anísio - A Música Brasileira é formada por uma tríade: samba, baião e chorinho. Por perto deles vem o frevo. Jovem Guarda foi uma grande merda, uma coisa a envergonhar pessoas inteligentes. O BRock teve altos e baixos, e não devia ter esses BR, devia se assumir rock cantado em português. Um fado passa a ser BRFado se for gravado no Brasil? Já ouviu falar em BRTango? Forró Universitário é deformação de Jackson do Pandeiro e Trio Nordestino. Nova MPB? Será mesmo que é nova, e será que é MPB? Clube da Esquina é Milton, e raros lampejos de Beto Guedes...O importante é a diversidade da Música Popular Brasileira. Rótulos existem apenas para serem vendidos.
Madan - Porque você teve “rugas” com Guilherme Arantes e Arthur Moreira Lima? Você poderia nos contar os motivos, já que não consta em seus livros e entrevista que deu?
Ricardo Anísio - O Guilherme tem meia-dúzia de boas canções e um dia me disse em entrevista: “Minha beleza física desviou a atenção das pessoas da minha música. Eu sou do mesmo nível de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento”. Pode? Escrevi sobre isso e ele parou o show para me malhar. O Arthur foi desrespeitoso com o Millôr Fernandes e com seu público. Era um recital de música popular em que ele intercalaria músicas com a leitura de crônicas de Millôr, e o cronista estava na platéia. Fui ao teatro por causa dele, mas o Moreira Lima achou que não valia a pena ler os textos, aí eu me levantei e disse: “Quero meu dinheiro de volta!”. Aí ele saiu do palco irado, e não retornou.
Madan - O que você acha do panorama da Música Popular Brasileira atualmente? Há alguns destaques - seja em que gênero for – que você possa no citar e indicar?
Ricardo Anísio - Recebo dezenas de CDs por semana, de toda parte do Brasil, e há muita gente boa. Consuelo de Paula, Cássio Gava, Peri, Céu. Gosto muito de Lenine, de Zeca Baleiro, de Ceumar, de Vânia Abreu... Mas acho que a MPB ainda vive dos seus grandes ícones. Chico Buarque, João Bosco, Gilberto Gil. O Caetano não mais; há uns 12 anos ele resolveu se “aposentar na ativa”, entende? Está ganhando dinheiro como mercador de música, mas a veia criativa murchou.
Madan - Ricardo Anísio, você é biógrafo oficial do Geraldo Vandré. Tem previsão de lançamento deste livro histórico?
Ricardo Anísio - Não tenho sequer previsão de que terminarei essa biografia. Com certeza estou programado para escrever um livro sobre Vandré, mas a tal biografia oficial tão aguardada, pode ser abortada. Ele está cada vez mais enclausurado em sua alma e em sua agonia. Tem dia que quer o livro, tem dia que não quer. Só farei se isso não abalar nossa amizade. Mas farei um livro tipo “o que eu sei sobre Geraldo Vandré”. Informal, passional e informativo como não pode ser a biografia de um mito como ele.
Madan - Você também está escrevendo biografias de outros autores paraibanos?
Ricardo Anísio - Fui convidado a fazer a biografia dos compositores Antônio Barros e Cecéu, autores de mais de 200 grandes sucessos da música nordestina como “Bate Coração”, “Homem com H” e tantas outras. Por enquanto é somente isso.
Madan - Quais os artistas paraibanos que você destaca – em todas as áreas da Arte e Cultura – da “velha guarda” e da nova geração?
Ricardo Anísio - José Siqueira (maestro que fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira e foi o primeiro latino a reger a Orquestra Sinfônica de Moscou), José Lins do Rego, Sivuca, Augusto dos Anjos, Santa Rosa (cenógrafo e artista plástico), Paulo Pontes (dramaturgo), Cassiano, Zé Ramalho, Elba, Vital Farias, Vandré, Jackson do Pandeiro, Celso Furtado, Assis Chateaubriand, etc
Madan - Quem você já produziu musicalmente e porque recusou o convite de Geraldo Vandré para produzir um álbum dele, que seria histórico?
Ricardo Anísio - Porque ele só me fez esse convite para me ajudar em um momento de profunda crise financeira. Ele é generoso demais comigo e via nisso a possibilidade de eu faturar alto. Não tenho a menor tendência para mercenarismo. Foi por uma questão afetiva que não fiz o disco.
Madan - Ricardo Anísio, você está recebendo trabalhos de artistas independentes e selos pequenos? Em caso positivo, como entrar em contato com você?
Ricardo Anisio - Recebo muito menos do que gostaria, porque as gravadoras 'majors' não me interessam muito. Elas são cúmplices, junto com a mídia eletrônica, desse caos pelo qual está passando a MPB. Gostaria deter mais contato com selos pequenos e artistas independentes. Meu email para contato é :ricardo.anisio@gmail.com
Madan - Ricardo Anísio, obrigado pela entrevista e o que você nos adianta de suas novas produções?
Ricardo Anísio - Surpresas virão. Não gosto de me antecipar ao tempo e ao destino.
Madan - Obrigado e um grande abraço.
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