Completando 40 anos de carreira Nivaldo Ornelas tem muito a comemorar... Inúmeros discos de carreiras e participações (nacionais e internacionais), prêmios, troféus, enfim, uma trajetória impecável, além de ser muito querido e requisitado em nosso meio musical...
Em entrevista exclusiva ao Alô Música conta um pouco de sua história...
Aloizio Jordão - Como a música entrou na vida de Nivaldo Ornelas?
Nivaldo Ornelas - Meus pais são músicos amadores, e tinham um grupo de seresta, chamado "Revivendo o passado", em Belo Horizonte. Sendo eles músicos amadores, tendo eles sacado que eu tinha talento para a música, me encaminharam para uma escola muito boa chamada "Escola de Formação Musical". Essa escola foi fundada por Heitor Villa-Lobos, assim como outras escolas de música pelo país.
Aloizio Jordão - E aonde isso?
Nivaldo Ornelas - Em Belo Horizonte. Eu tinha 10 anos de idade. Enfim, aos 16 anos estava pronto - nisso veio música básica, um negócio muito bem feito. Estudei no Conservatório, na Escola de Música. Eu queria tocar clarinete, aos dezesseis anos já tocava na Sinfônica Jovem.
Aloizio Jordão - Mas a opção do primeiro instrumento?
Nivaldo Ornelas - Não, eu passei por vários instrumentos, toquei acordeom, flauta de lata, segundo a minha mãe eu cantava, mas cantava escondido, debaixo da mesa, aquelas coisas...
Aloizio Jordão - E nessa época, quais eram as influências, o que você ouvia?
Nivaldo Ornelas - Rolava muito sarau na minha casa. Não existia televisão, então rolava música de todo jeito na minha casa, inclusive moda de viola. Havia nessa época, uma dupla de violeiros, mas era música instrumental. Os 'caras' faziam uma espécie de desafio... eu achava interessantíssimo: aqueles caras vinham lá do meio do mato e tocavam muito bem. É uma tradição mineira que vem do ciclo do ouro, aquilo me fascinava.
Aloizio Jordão - Essa sua relação com o barroco...
Nivaldo Ornelas - Eu nasci no meio dele - parte da minha infância eu passei em Nova Lima, cidade próxima a Belo Horizonte. Meus tios trabalhavam na Mina de Morro Velho (Saint John Del Rey Mining Company). Lá parecia uma vila inglesa, com toda aquela atmosfera pós-medieval e renascentista. Eu respirei muito isso na infância com seis, sete anos de idade. Paralelamente a isso, tinha a coisa da música religiosa. Minas Gerais era um convento só. E, além disso, existiam aquelas manifestações via África e que ainda existem, como a Folia de Reis e o Congado. Numa época em que não tinha televisão, os costumes eram mais fortes, a raiz... Você tinha isso em todo lugar, você convivia com isso...
Aloizio Jordão - Bom, nós vamos sair do barroco, de toda essa influência do barroco, e vamos cair diretamente no jazz... Então, como é que entra o jazz na vida de Nivaldo Ornelas? O que ele ouve, quais são as influências?
Nivaldo Ornelas - Quando eu tocava acordeom, eu ouvia Luiz Gonzaga e adorava! Achava muito bom aquilo, muito espontâneo... Depois, quando eu comecei a tocar clarinete, eu ouvi Benny Goodman - achei interessante, e falei "oba! - que som bom, gostei muito, uau!"...
Aí, aos dezessete, dezoito anos, eu e mais quatro garotos fizemos um clube de jazz, que se chamava "Berimbau" - uma loucura... Foi o primeiro clube da cidade. Nós pegávamos alguns discos de jazz na Embaixada Americana e foi aí que tudo começou. O primeiro disco de jazz que ouvi foi de John Coltrane. A música "Ruby my Dear" do disco The Prophet do Thelonius Monk me despertou o interesse pelo saxofone, que foi uma coisa definitiva. Coltrane foi a minha grande influência, junto com Miles Davis, Monk, além de Ravel, Debussy e Richard Wagner.
Aloizio Jordão - Então eu acho que acertei quando disse na resenha que "... se John Contrane ouvisse..." - rs...
Nivaldo Ornelas - É, é... Ele gostaria...
Aloizio Jordão - Então eu acho que eu dei uma acertada nessa entrada...
Nivaldo Ornelas - Tanto que você sabe que eu peguei o disco dele, o "The Prophet" (Monk e Contrane), passei um ano tirando todas as músicas, um ano da minha vida... Tirei todas as músicas dele, gravei em play back, fazendo com metrônomo e violão - gravei todas as músicas e comecei a praticar... Passei todo esse material para os meus alunos, porque na época ainda não havia esse tipo de estudo no Brasil, foi ótimo para a rapaziada.
Aloizio Jordão - E o circuito da música? Porque você faz um clube, funda um clube com seus amigos lá em Belo Horizonte, mas como você é descoberto ou como você descobre o mercado - como o mercado descobriu Nivaldo Ornelas?
Nivaldo Ornelas - Na verdade, toda a minha geração de lá veio para o Rio de Janeiro, inclusive o próprio Milton, Vagner, Toninho Horta, Paulinho Braga, Helvius Vilella e Pascoal Meireles. Lá não havia mercado. A gente era sonhador, a descoberta se deu na verdade no Rio de Janeiro. Chegando, o Paulo Moura me convidou para tocar numa banda só de jovens com mais o Márcio Montarroyos, Claudio Roditi e Paschoal Meirelles, entre outros.
Aloizio Jordão - E como se chamava essa banda?
Nivaldo Ornelas - "Paulo Moura e Sua Banda Jovem". O Osmar Milito, que toca no Mistura Fina também estava lá. E o Paulo foi o grande mentor...Ali foi a grande descoberta realmente. No cenário da música - não foram eles, mas fui eu que os descobri... Eu era um ilustre desconhecido.
Aloizio Jordão - E por quanto tempo a banda ficou com essa formação?
Nivaldo Ornelas - Isso demorou um ano, porque logo em seguida eu conheci o Hermeto em São Paulo, na boate "Star Dust", eu e Paulinho Braga, e ele falou:
- Você é de onde?
- Eu sou de Minas...
- E de onde vem essa sua maneira de tocar?
- Eu não sei...
- Eu vou para os Estados Unidos, gravar com a Flora Purin e o Ayrton, e quando eu voltar vou fazer uma banda experimental, vai ser pra sacudir o coreto - você topa ir para São Paulo?
- Correndo! Porque eu o vi tocando e eu não entendi nada! Esse é o cara...
E não deu outra - um ano depois Hermeto voltou e nos encontramos no Festival da Canção aqui no Rio. Ele disse: "Vamos fazer a banda?" - "Vão bora!" E aí foi um reboliço...
Aloizio Jordão - Quanto tempo isso?
Nivaldo Ornelas - Um ano... Aí ele voltou para os Estados Unidos, na volta me chamou novamente para ir a Montreux e ao Japão...
Aloizio Jordão - É, eu tenho esse trabalho inclusive, "Hermeto em Montreux"...
Nivaldo Ornelas - Isso!... Eu estava ali... Eu tenho uma revista Manchete que tem uma foto nossa na capa. E ali foi bom porque eu andei rápido... Eu estudava muito e foi quando a ficha caiu.
Aloizio Jordão - Eu pessoalmente começo a observar o Nivaldo Ornelas num solo muito interessante em "Beijo Partido"...
Nivaldo Ornelas - Isso é mais atrás, 75/76... "Minas"...
Aloizio Jordão - Exatamente... "Minas"...
Ali você já participava de todas essas gravações, estúdio...
Nivaldo Ornelas - Com certeza - é que o Milton, depois que ele apareceu no cenário, ele quis reunir a nossa turma. E reuniu mesmo - nesse disco é toda a nossa turma, mais o Luiz Alves e o Robertinho, que são agregados... E pegou na veia aquele disco, que teve uma 'união', uma 'direção'...
Aloizio Jordão - Maravilhoso... Uma 'pintura', na verdade...
Nivaldo Ornelas - Através daquele disco, todos nós viajamos para fora do Brasil. E aí eu comecei a gravar com todo mundo a partir dali...
Aloizio Jordão - A partir dali... Citei porque como eu acompanhei mais ou menos o que você percorreu... É que você fez uma referência do Hermeto já nos anos 80 - aí eu estou voltando lá em 75 porque aquilo ali foi uma marca...
Nivaldo Ornelas - Dois discos - esse Milton "Minas" e o Toninho Horta, "Aquelas coisas todas" - disco paralelo, feito na mesma época... "Bons Amigos"... Isso rodou por aí... Os caras tiravam os meus solos desses discos. O Idriss Boudreoua me disse que até na França isso acontecia. Quem também me procurou foi o Lyle Mays, pianista da banda do Pat Metheny para saber mais detalhes das nossas gravações.
Aloizio Jordão - Nos final dos anos 80, começo dos anos 90 existia uma movimentação, principalmente no Rio de Janeiro, em relação à música instrumental... Então eram feitos vários projetos, Parque da Catacumba, Parque Garota de Ipanema, projetos da Nexus, inclusive... Depois existe uma ruptura, pela invasão de outras influências no mercado, enfim...
Nivaldo Ornelas - A partir de 10 anos, 93/94, houve um esvaziamento...
Aloizio Jordão - E você atribui a quê?
Nivaldo Ornelas - O problema maior é a violência. As pessoas vão ficando com medo e vão sumindo das ruas, principalmente à noite. Isso atrapalha muito, os projetos...Outra coisa é que o País empobreceu e a gente é considerado "coisa supérflua". Isso no ponto de vista de 'projetos'...
Aloizio Jordão - Ou do ponto de vista de gravadora?
Nivaldo Ornelas - No ponto de vista das gravadoras a pirataria está destruindo...
Aloizio Jordão - Existe hoje no mercado fonográfico muitas pessoas com trabalhos instrumentais totalmente à margem do mercado fonográfico. O mercado fonográfico não tem interesse hoje em editar esses trabalhos, por não serem vendáveis, etc, etc... Você acha que aquele slogan "Música é Cultura" ainda ta valendo?
Nivaldo Ornelas - Sempre valerá. Porque, na verdade, esse é um caminho bem undergrownd - eles sobrevivem... Você não está vendo, mas eles estão por aí...
Aloizio Jordão - Tá, mas a gente está falando da massificação como houve, por exemplo, nos anos 80, quando as pessoas iam, e não houve continuidade...
Eu queria que você me desse um parecer sobre o momento da música instrumental no Brasil... Existem hoje festivais isolados como o Festival de Guaramiranga no Ceará, em pleno Carnaval...
Nivaldo Ornelas - Antes só tinha Festival no Rio de Janeiro - hoje tem Festival em Governador Valadares, Maceió, Búzios... Tem Projeto para todo o lado... Outro dia eu estava em Ipatinga, Minas Gerais, tocando com o pessoal lá de jazz... Então, o que está acontecendo? As pessoas acordaram em outros Estados... No Rio continua, não é que esvaziou tanto, mas o que acontece é que agora tem no Brasil inteiro... No ponto de vista da criatividade dos talentos, está melhor do que nunca... Eu fico impressionado...
Aloizio Jordão - É verdade...
Nivaldo Ornelas - Porque a rapazeada de 18, 20 anos tem informação, o cara anda rápido... Você vê - ele hoje está aqui e daqui a seis meses você o encontra em outra situação, já evoluiu... Um exemplo disso é o Marcelo Martins e o Eduardo Neves, que estão tocando conosco. Marcelinho e Eduardo fizeram um "zuuuuuum"... No meu tempo as coisas vinham de navio, você custava a descobrir-las. Você ouvia o galo cantar e não sabia onde... Hoje o cara tem vídeo de shows, Free Jazz... Os caras vão lá... Tem muita gente talentosa aqui no Rio de 20, 21 anos... Tem um menino que toca bateria, o Rafael Barata - de 20 anos - que já está no fim do livro. Os meninos estão tocando tudo... Por esse lado está mais rico...
Aloizio Jordão - E você vê a possibilidade de um aquecimento no mercado? Eu pessoalmente acho que Niterói, por exemplo, tem um outro formato em relação à música instrumental... Niterói se promove bem mais Festivais...
Nivaldo Ornelas - Mas aqui no Rio também acontece muita coisa...
Aloizio Jordão - E a rádio, por exemplo?
Nivaldo Ornelas - Não toca - mas não toca no Brasil inteiro... Nem em Niterói... Não toca... A questão é grana... As multinacionais compram os horários e eles vão ter o retorno... Então aqui no Brasil, com essa mentalidade, se a gente tivesse um negócio governamental mesmo, 5%, 1% da programação, se resolveria logo esse problema... Você se lembra da Rádio Opus 90 - aquilo ali era o seguinte: pelo que eu fiquei sabendo as outras rádios é que fecharam a Opus, ela estava começando a incomodar... Música erudita... Lançamento de disco instrumental - era um espaço... Tesouraram aquela Rádio... Isso é complicado... Se o Governo entrar no meio... Senão, esquece...
Aloizio Jordão - Como está o momento social para o músico? Como está o País para o músico?
Nivaldo Ornelas - Dizem por aí que músico só fala de música - tudo bem, é que o universo é muito rico... Mas a verdade é que a prioridade do País, na minha opinião, é saúde e educação, isso vem em primeiro lugar. Aliás, antes disso vem o combate à fome. O pessoal combate muito o Projeto Fome Zero, mas é um princípio, alguém está fazendo alguma coisa, ninguém fez antes... Não é o ideal, tudo bem, mas é um começo... Em seguida saúde e educação porque a gente só se tornará uma nação quando isso for realmente prioridade... Aí em seguida a gente passa a falar de música, de arte, disso e daquilo - isso é prioridade...
Aloizio Jordão - Você acha que de alguma maneira isso acaba refletindo diretamente no momento do trabalho?
Nivaldo Ornelas - Eu acho que o artista pincela o momento que ele vive... Os pintores no tempo da guerra, aqueles pintores que estavam nos campos de concentração pintavam aquele momento em que viviam e isso passou para a posteridade... Nós músicos tocamos o nosso momento. Botamos pra fora o momento que a gente vive... Independe - não precisa estar um mar de rosas para você estar criando alguma coisa... Às vezes muito pelo contrário...
Aloizio Jordão - Perfeito! E esse panorama musical? Vamos falar da organização da música, dos músicos...
Nivaldo Ornelas - Do plano artístico acho que estamos num ótimo momento - é engraçado, geralmente são contrastes... Eu acho que a gente vive um grande momento de criatividade, tem muita gente jovem, os músicos da minha geração, um momento muito bom...
Agora, do lado do músico como profissional, da sobrevivência, eu acho o músico brasileiro, e no caso aqui no Rio de Janeiro, ele tem que se aproximar do Sindicato dos Músicos... é a sua representatividade... Estou achando que o pessoal está longe do Sindicato - fala: "-Ah! O Sindicato não faz isso, não faz aquilo..." O Sindicato é que nem o governo, nós somos o Sindicato... Ele não está lá, ele está aqui... Ele é o governo, mas quem o elegeu fui eu... Então os músicos precisam se aproximar, pensar coletivamente. O universo do músico geralmente é tão rico que ele se basta e acha que não precisa... Mas não é por aí, tem que procurar se aproximar...
Aloizio Jordão - Você está dizendo que músico é vaidoso?
Nivaldo Ornelas - Mas é muito! Não é pouco não, é muito! Porque na verdade a vaidade tem um lado bom. Ela é a mola que impulsiona a pessoa para frente. Ela é o tempero, sem vaidade nenhuma tanto faz e eu acho que não é por aí... A vaidade de ter seu trabalho reconhecido, de estar fazendo uma coisa bonita, enfim...Mas, por outro lado, só vaidade? E aí? Porque é tão lindo ser músico, maravilhoso, que o cara acha que é um gênio, e não é bem por aí.
Aloizio Jordão - Alguns músicos no Brasil hoje têm a possibilidade de ter seus trabalhos solo, mas outros não. Sobrevivem acompanhando cantores, algumas "estrelas'... O que você tem a dizer sobre essa relação de "cantor x músico instrumentista"?
Nivaldo Ornelas - Praticamente a única experiência nessa área foi com o Milton Nascimento, num relacionamento de respeito mútuo. Ele é um grande artista, um mito! Mas antes de tudo um músico e como tal, sabe reconhecer o talento de quem o cerca. Em termos de estúdio, praticamente gravei com todo mundo aqui no Rio. Só posso falar bem. Tenho sido tratado com muito carinho. Agora, tenho alguns amigos que acompanham cantores e que reclamam da falta de respeito sim!
Aloizio Jordão - Interessante a sua história com a Sarah Voughan... Você teve oportunidade de tocar com outros cantores "músicos"?
Nivaldo Ornelas - A Sarah Voughan tratava a gente como se fossemos os maiores do mundo, isso para eles é cultural, lá é assim. Não existe diferença entre músico e cantor, é tudo uma coisa só. Trabalhei também trabalhei com a Lúcia Newell, uma cantora e pianista americana fabulosa... Ela gostava de me ver improvisar. Em algumas músicas ela só cantava no final. Interessante não é? Eu falava: "Caramba! Não estou acostumado com isso!"
Aloizio Jordão - É, isso no ponto de vista da carreira do músico instrumentista fica muito complicado porque essa projeção da música instrumental hoje ainda é muito pequena... Haja visto, foi até bom a gente tocar nesse assunto, haja visto a música sinfônica...
Nivaldo Ornelas - Isso aí é um assunto que a gente tem que falar muito... A música sinfônica. Música sinfônica, música erudita. Todo o show businness no caso do Brasil, está ancorado na música sinfônica. Todas as atividades de televisão, de rádio, de shows, dos cantores, música lírica, a ópera, o teatro, o balé, o cinema, tudo é amparado na música de qualidade. Você não coloca qualquer coisa. E para fazer música de qualidade tem que ter músicos de alto nível... E de onde vem esse povo? São os músicos das Orquestras Sinfônicas... Acontece que os governos tinham que dar total apoio a isso, porque é a base de tudo, é a base de toda estrutura artística de um país. Pode ver, não existe balé sem música, teatro sem música... Pavarotti vem ao Brasil - tem que colocar a melhor orquestra... É ou não é? Michel Legrand foi tocar na Lagoa - pegou o pessoal da Sinfônica Brasileira, é tudo assim... O músico sinfônico é um cara que estudou em Universidade, ele é formado, ele estuda, tem que ter os melhores instrumentos... Para você ter uma idéia, um encordoamento de violino custa quinhentos dólares, um arco mil dólares (coisas de nível)... Tem um instrumento que se chama contra-fagote, de madeira, que custa trinta mil dólares... Imagina métodos, encordoamentos... Uma palheta de oboé é de cana do reino, você tem que importar... Esse material de trabalho é muito caro... Se o músico não tiver apoio, como ele sobrevive? O Brasil é um País de 170 milhões de habitantes. Provavelmente existem umas três ou quatro orquestras de alto nível, o resto está sobrevivendo dignamente... No Rio de Janeiro que é um lugar com muita tradição nessa área, porque o movimento aqui começou cedo, a nossa principal orquestra se chama "Orquestra Sinfônica Brasileira". Por incrível que pareça ela tem um nível muito bom ainda, mas isso na base da garra dos músicos, da alma, do amor que os caras têm pela música, apesar dos problemas. O Prefeito César Maia está dando uma força, não sei se você está sabendo... Ele está ajudando a Brasileira, a Petrobrás fundou a Orquestra Pró-Música, a ALERJ ajuda a Orquestra Filarmônica do Rio e o Teatro Municipal também está dando uma força para ver se joga para cima, para melhorar o panorama artístico da cidade. Eu acho que a coisa mais importante no âmbito artístico é a música sinfônica...
Aloizio Jordão - E é fácil massificar isso porque quando você vê uma apresentação de uma Orquestra Sinfônica, como o "Projeto Aquarius", aqueles projetos que existiam antigamente, você via que não tinha lugar para mais gente...
Nivaldo Ornelas - Não tem essa que o povo não entende, se ele pára para ouvir, certamente vai gostar... O pessoal investe muito em segurança, com essa violência que está aí... Caramba! Leva a música sinfônica na favela, pelo menos perto da favela, pelo menos na periferia... Ninguém vai atacar os músicos, jamais, eles são intocáveis... Leva som, leva muita música, leva balés, e tal para esse povo... É um começo, é o inverso, e está dando trabalho para os músicos...
Aloizio Jordão - É, e tirando esse pessoal da margem da exclusão... Porque essas pessoas são excluídas socialmente...
Nivaldo Ornelas - Eles estão fazendo um projeto de levar o pessoal ao Municipal - eu acho que não precisa tanto, calma, vai devagar... Leva os músicos até eles, é muito mais fácil levar os projetos... Porque para os músicos sinfônicos no Brasil a situação está difícil e ninguém fala nada... Há um silêncio constrangedor...
Presta atenção: vem não sei quem no Brasil - tem que pegar aquele povo, essa nata - é neles que os músicos se espelham porque eles estão em outro nível...Não esquecer que eles são os professores da maioria das escolas da cidade.
Aloízio Jordão - Mas você acha que isso não sensibiliza nem o Ministro que é um músico?
Nivaldo Ornelas - Olhando de longe, a impressão que dá é que o Gilberto Gil está com muitos problemas... Em um país em que faltam recursos em áreas básicas como educação e saúde, não há como investir mais em cultura. Na verdade, nós músicos só falamos de música. Mas é preciso lembrar da arte como um todo: música, artes plásticas, teatro, literatura, cinema e vai por aí afora... No caso do Ministro, ele tem que pensar em tudo isso ao mesmo tempo, não é fácil.
Aloizio Jordão - E Nivaldo Ornelas ouve o quê? Quem o Nivaldo ouve hoje?
Nivaldo Ornelas - Na verdade eu não tenho muito tempo para ouvir, pois sendo compositor, passo o dia inteiro ao piano fazendo música...Mas eu ouço música erudita, além da MPB e do jazz, é claro... Atualmente estou ouvindo dois compositores - um é o Richard Strauss, o outro é o Vaugn Williams, um compositor inglês que influenciou a música do faroeste americano, no princípio do século passado.
Aloizio Jordão - Eu pude observar, nesse seu recente trabalho, "Reciclagem", tem alguma coisa de alguma tribo ali... Do Xingu, de onde é isso? Onde é que você foi buscar isso?
Nivaldo Ornelas - São trechos tirados de coisas que realmente ouvi, e mais o clima do momento... a gente improvisa muito. Falando das influências, tem a música indígena, africana, impressionismo e da Broadway. É muito forte, quando se tem eu e Robertinho Silva juntos, é tudo absolutamente improvisado. Cada dia é diferente do outro. A gente vai buscar tudo lá do fundo do baú, é uma viagem pra dentro... É tudo o que eu vi, vivi e ouvi.
Aloizio Jordão - E novos trabalhos, alguma coisa?
Nivaldo Ornelas - Eu vou lançar um disco esse ano que se chama "Viagem em Direção ao Oco do Tôco". Eu e o pianista André Dequech. Um som como se fosse uma conversa, que nem a gente aqui agora, não tem nada prévio. É como uma conversa que acerta, depois desacerta, questiona, briga...E retoma no final.
Aloizio Jordão - Você falou em 88 - dois anos depois você faz a "Colheita do trigo". Aquilo é um belo disco e eu lamento muito não terem re-editado isso...
Nivaldo Ornelas - Mas eu tenho uma notícia boa - fui lá na Som Livre - não sei se te falei.
Aloizio Jordão - Não, está sendo em primeira mão...
Nivaldo Ornelas - É que era da Som Livre (Selo Chorus). Eles não vão continuar com o Selo e me deram o master - agora sou dono.
Aloizio Jordão - Maravilha!
Nivaldo Ornelas - Será lançado em CD... E tem aquela música que te falei... "Nova Lima Inglesa"
Aloizio Jordão - E já tem um tempo para isso?
Nivaldo Ornelas - Ta faltando só o dinheiro para a prensagem... Como eu tenho dois discos, vou ver qual que vou lançar primeiro... Mas ele certamente está vindo por aí...
Aloizio Jordão - Maravilha...
Muito prazer falar com você, Nivaldo - Muito obrigado.
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