Entrevista

Mazinho Ventura

Por: Aloizio Jordão

Mazinho Ventura é um músico antenado com seu tempo, seu trabalho e sua música - fica difícil para qualquer pessoa que o conheça poder resumir um musico tão talentoso. Certa vez eu disse a ele que a sua sorte era eu não ser baixista, porque se o fosse certamente gostaria de ser igual a ele... (coisa de admirador). Mas é a pura verdade - vê-lo tocar e não admira-lo seria absolutamente inimaginável. Mazinho Ventura está à frente dessa parabólica musical, talento e competência são coisas que esse grande músico tem de sobra, haja visto sua trajetória dentro do cenário da música. Então, é com imenso prazer que apresento aos visitantes do ALÔ MÚSICA esse grande músico que, além disso, é sem sombra de dúvidas um grande amigo e uma pessoa extraordinária.

Aloizio Jordão - O Alô Música está em Niterói para entrevistar essa grande figura, e a primeira pergunta para Mazinho - como a música entrou na vida do Mazinho Ventura?

Mazinho Ventura - Olha, rapaz, outro dia estava dando uma entrevista para um amigo nosso, Dalmo C. Motta, e ele me fez essa mesma pergunta... Eu falei com ele que desde que eu me entendo por gente eu tenho relação com música... As minhas memórias mais remotas são de quando eu tinha quatro anos de idade com meu tamborzinho atrapalhando o ensaio do meu tio, que ensaiava na minha casa - então eu acho que a minha relação com música que começa quando eu nasci... Mas eu comecei a estudar música com onze anos de idade e daí não parei mais...

Aloizio Jordão - Como você vê hoje o momento da música instrumental no País? Como está o comportamento da música instrumental, como você vê esse panorama?

Mazinho Ventura - Bom não está, mas eu enxergo uma ascendência, por que a cada ano começam a aparecer novos Festivais de música instrumental em todo Brasil, em lugares como Sergipe, Guaramiranga, no interior do Ceará (que até participamos ano passado, eu e Dino Rangel, e esse ano também)... É um Festival que acontece durante o Carnaval maravilhoso... E em outros lugares como Rio das Ostras, que começou nesse verão com Festival de Jazz, Búzios também... Estou enxergando uma ascendência e eu espero que essa ascendência continue até o momento que a gente possa responder num futuro mais próximo possível, quando essa pergunta for feita novamente: "- Como está o cenário da música instrumental no Brasil?" - está bom, está ótimo, acredito que daqui a pouco a gente já possa falar isso...

Aloizio Jordão - E como é que você percebe essas pessoas, principalmente o instrumentista, que está com seu trabalho pronto, mas está à margem do mercado fonográfico, como você vê esse comportamento, como você sente esse mercado?

Mazinho Ventura - Acho que essa questão do mercado fonográfico está cada vez mais complicada, em vários sentidos... Primeiro que a gente tem pirataria, que a gente não sabe nem muito bem a origem ou as origens dessa pirataria - isso é uma coisa que vem se questionando muito... Tem gente que acha que as próprias gravadoras participam disso porque ganham por fora, e tem muitas especulações nesse sentido... Então eu vejo isso de uma forma complicada... Por um outro lado eu também vejo a questão da Internet, que está ajudando a expandir, a divulgar, de uma forma muito mais global o trabalho da gente... Hoje em dia você pega duas músicas de um CD, coloca na Internet e todo mundo ouve... Ouve, se interessa, de repente quer comprar o seu CD, te liga, te manda um e-mail... Então eu acho que esse mercado fonográfico está num processo de modificação... Não sei onde isso vai parar, mas eu acho que está tomando, nesse sentido da Internet, está tomando uma direção positiva...

Aloizio Jordão - E como você vê o jabá?

Mazinho Ventura - Eu observo o seguinte: quando a gente falou na questão de cada vez ter menos espaço na Rádio, esse negócio do jabá que se instituiu sei lá de quando para agora, mas que eu observo, por exemplo, nos anos 70 você tinha Azimuth como tema de novela - então tocava na Televisão todo dia...

Aloizio Jordão - Você tinha Márcio Montarroyos, Egberto...

Mazinho Ventura - Tinha Márcio Montarroyos, Egberto, Banda Black Rio...

Aloizio Jordão - Antonio Adolfo...

Mazinho Ventura - Antonio Adolfo, tinha isso tudo na mídia... E Antonio Adolfo já chegou de uma maneira diferente, já chegou independente - o primeiro LP dele foi o primeiro LP independente do Brasil... E fez sucesso, e tocou nas Rádios...

Aloizio Jordão - Mas você há de convir que não existia essa tendência... Na verdade hoje quem dita o que as pessoas vão ouvir são as majors, existe um direcionamento para isso, você concorda?

Mazinho Ventura - Concordo, claro que concordo... E acho até que essa questão da massificação, que você colocou bem aí tem a ver com a música descartável... Ou seja, é aquele negócio que o cara sabe que vai fazer dinheiro rápido e fácil - amanhã ninguém vai lembrar o que é, mas tudo bem, ele coloca outro "grupelho" no lugar daquele primeiro "grupelho" e tudo certo, injeta de novo na mídia com força total e ganha mais um dinheiro. Quer dizer, a via de comunicação ficou muito mais interessada nos lucros do que na divulgação da cultura...

Aloizio Jordão - Mazinho, como você vê a relação do instrumentista que acompanha o músico? Porque você vê que hoje muitos têm os seus trabalhos individuais, mas que, por uma questão de sobrevivência, precisam acompanhar alguns artistas - como você vê essa relação entre o instrumentista e o cantor?

Mazinho Ventura - Eu vejo essa relação de uma maneira muito boa porque a minha escola foi trabalhar com esses cantores, com esses artistas. Então eu te confesso que comecei a tocar profissionalmente com aquela dupla baiana, Antônio Carlos e Jocafi, e daí foram muitos e tantos, enfim... Estilos diferentes, diversos mesmo, e acabou que a minha formação musical foi muito mais nessa prática, de acompanhar essas pessoas e de aprender com elas, que você tem que parar e ouvir o que o cara quer, como ele quer, de que forma ele quer que você toque, enfim... Então a minha formação foi muito mais assim do que propriamente em uma formação acadêmica, de estar ali numa sala de aulas todos os dias, estudando a história da música... Então a minha formação foi assim, com esses caras, eu agradeço demais a eles, e acaba que eu me sinto hoje uma miscelânea de estilos. Se você ouvir o meu CD você vai encontrar isso, você vai identificar isso... Eu sou uma mistura de Martinho da Vila com Paulo Moura com Márcio Montarroyos, Ivan Lins, Beth Carvalho e esse bololô todo aí... Desculpem aqueles que eu não citei, todos foram super importantes. A minha relação com essa questão de acompanhar artista é a melhor possível...

Aloizio Jordão - Vamos falar de Guaramiranga - estou sabendo que o show do Mazinho Ventura foi alguma coisa assim sensacional... Teve uma votação em Guaramiranga, foi isso?

Mazinho Ventura - Rapaz, é como dizia João Bosco numa música que ele canta - aquilo lá foi um caminhão de coisa boa... Que maravilha! A gente chegou lá e a intenção primeira era de fazer uma apresentação em Guaramiranga. E o que acontece? Nesse Festival a platéia quando chega recebe um cuponzinho para votar - o show que as pessoas acham melhor da noite eles votam e os votados são reapresentados depois em Fortaleza, num espaço que tem maravilhoso, um anfiteatro que fica dentro de um espaço cultural chamado Dragão do Mar, que é um lugar muito legal... E por acaso o meu show foi o mais bem votado desse Festival... Então a gente tinha ido para fazer um show, a princípio transformou em dois porque eu recebi um convite de um guitarrista de São Paulo chamado Edu Negrão para participar do show dele também. Então eu já fui com esses dois na lista que acabaram virando quatro, porque o meu foi votado e o dele também - repetimos os dois em Fortaleza e foi maravilhoso... O Festival foi assim tudo de bom... Eu coloquei CDs para vender na lojinha oficial do Festival numa tarde e no dia seguinte de manhã não tinha mais nenhum, e tinha gente na rua me pedindo autógrafo... Eu me senti em casa porque na minha casa eu sou famoso, todo mundo me conhece em casa - então lá eu me senti em casa... As pessoas vinham falar comigo, ficavam felizes porque eu autografava o CD para eles... Me senti quase um artista...

Aloizio Jordão - Uma outra questão que eu queria abordar com você é que nós temos um Ministro da Cultura que é músico, e pelo que nós estávamos falando anteriormente em relação a jabá, execução da música instrumental ou popular nas Rádios, como você vê a proporção disso? Quer dizer, nós temos um Ministro que já enfrentou isso, inclusive que perde espaço para o que vem de fora, para essa massificação toda que está aí. Você acha que ele poderia ter feito alguma coisa? Eu queria a tua opinião...

Mazinho Ventura - O fato de termos o Gil como Ministro hoje é importante porque é uma pessoa que tem uma opinião forte no mercado musical, ele é aquele cara que tudo que ele disser todo mundo vai ouvir porque ele é o Gil, uma pessoa consagrada, e tal, então a partir daí e do poder político que ele tem também agora, eu acredito que ele seria a pessoa para dar um "start" na mudança dessa história... Não sei de que forma ele faria isso, teria que ver as questões legais, enfim, mas ele seria a pessoa mais indicada para dar um start nessa mudança...

Aloizio Jordão - E no ponto de vista da organização dos músicos? Porque hoje já se tem o Sindicato dos Músicos - você acha que por intermédio de um Sindicato, de uma força, de uma expressão como a do Sindicato, se vocês como músicos podem articular alguma coisa, se você participa, como é isso pra você?

Mazinho Ventura - Poderia sim, mas eu não acredito muito nessa "força" do Sindicato para fazer isso...

Aloizio Jordão - Por uma questão de vaidade dos músicos?

Mazinho Ventura - Não, por uma questão de desorganização, por uma questão de falta de união, por uma questão de falta de visão...

Aloizio Jordão - Mas você acha que a vaidade não entra nisso?

Mazinho Ventura - Talvez, mas não seria o ponto mais forte não, acho que é uma questão de organização mesmo, conscientização - quer dizer, conscientização para organizar - nem a conscientização existe, então a organização fica mais difícil ainda...

Aloizio Jordão - Uma outra questão é a falência das Sinfônicas - como você vê isso no ponto de vista das grandes Orquestras estarem quase que falidas? É claro que agora algumas Empresas como a Petrobrás, o próprio César Maia está dando uma força na Orquestra Sinfônica Brasileira que é do Rio de Janeiro, mas em contra-partida existem outras Sinfônicas de tamanha importância em todo Brasil que estão praticamente falidas... Você acha que o povo não gosta do erudito?

Mazinho Ventura - Não, o povo não tem é muito acesso ao erudito - as vias de comunicação não dão acesso ao erudito, como eu falei naquela hora cada vez mais divulga grupelhos. Então o que acontece é que acaba havendo uma evasão, você vai perdendo... Como no futebol, aqueles caras super-jogadores acabam sendo contratados por times europeus - a mesma coisa, os spalas acabam saindo daqui e indo tocar na Alemanha, na Suécia, onde eles vão viver melhor, onde vão ter um padrão de vida melhor, porque afinal de contas o cara estudou a vida inteira, com dificuldade conseguiu comprar um instrumento, depois juntou mais dinheiro, vendeu aquele e conseguiu comprar um melhor até chegar naquele super instrumento, às vezes nem chegou e não encontra reconhecimento, a esse ponto de as orquestras começarem a falir, aí acabam optando mesmo por sair do Brasil. E essa evasão é muito preocupante, inclusive em relação aos próprios músicos eruditos, porque eles ficam meio sem referência, eles não têm uma referência ao vivo na frente deles... Se eles quiserem uma boa referência vão ter que comprar um CD da Filarmônica de Londres e ouvir o spala ali. Quer dizer, o cara não está ali do lado, está lá na Filarmônica de Londres tocando, isso é muito preocupante...

Aloizio Jordão - O que é que Mazinho Ventura ouve, quais são as influências do Mazinho para o baixo, o que influenciou o Mazinho a optar pelo instrumento? O que você ouviu, o que você ouve ainda?

Mazinho Ventura - Para mim tem duas perguntas em uma... O que me fez optar pelo instrumento foi o acaso, e eu vou te contar exatamente como foi essa história - eu tinha meus 15 anos de idade e bateu na minha porta um amigo meu e me perguntou: "- Mazinho, me diz uma coisa, você sabe tocar baixo?" Eu nunca tinha posto a mão num baixo na minha vida, mas eu menti para ele, eu falei: "sei"... Eu sabia porque ele estava me perguntando aquilo - esse rapaz tinha um irmão que entrava em todos os Festivais e ganhava - entravam duas músicas e ele ganhava o primeiro e o terceiro lugares, e melhor arranjo, e melhor intérprete, ele saía ganhando os Festivais. Quando o rapaz me perguntou se eu sabia tocar baixo eu sabia que ele ia me convidar para tocar com o irmão dele, então eu disse que sim. E o irmão dele aceitou que eu ensaiasse de violão (eu não tinha o baixo) e tocasse baixo no dito Festival. E não deu outra - fomos lá, ganhamos o primeiro e o terceiro lugares e ele continuou me chamando para Festivais, sendo que eu fui juntando meu dinheirinho, eu era adolescente, não tinha compromisso nenhum, todo dinheiro que eu ganhava eu juntava até que no final de um ano de Festivais eu comprei meu primeiro baixo - bom, aí eu já estava apaixonado pelo instrumento, fui me apaixonando assim, dessa forma... A partir daí eu comecei a ouvir tudo e todos de todos os lugares possíveis... Então eu busquei música americana, música européia, música asiática, música africana, música da conchinchina... Tinha um negócio que era diferente, eu queria saber, eu queria ouvir, eu comprava, e depois eu comecei a viajar para outros países e eu chegava e pesquisava, perguntava, ia assistir shows... Como destaque, e acho que para todo baixista elétrico, Jaco Pastorius, Marcos Miller, que é um super instrumentista e produtor também, toca outros instrumentos também além de baixo, toca sax tenor, sax soprano, clarinete baixo (que eu acho lindo), e não só os baixistas, mas vários outros músicos, Quicy Jonnes me influenciou e influencia muito até hoje, Ron Carter, Rey Brown, ícones que a gente não tem como não se influenciar por eles. Me lembro que um dia eu estava numa pizzaria numa cidade do interior no sul da França, e a gente tocava num bistrô perto da pizzaria e de vez em quando a gente ia para a pizzaria e às vezes a gente ia com instrumento na mão - um belo dia, a dona da pizzaria chegou e disse: "-Vem cá, vocês são músicos, não são? Eu já vi vocês com instrumentos... Vocês não estão reconhecendo aquele senhor sentado ali não?" Aí eu olhei, o cara estava meio de lado, meio de costas e eu sem ver o rosto disse: "-Não, quem é?" E ela disse: "- Pois é o Rey Brown..." E eu não agüentei, levantei e fui lá falar com o negão e disse: "-Olha, você me desculpe estar atrapalhando..." Rs... é, falar com Rey Brown é como se estivesse cumprimentando Alah... Ele foi super simpático, apertou minha mão, e tal, e certamente ele não lembra disso, mas eu nunca mais vou me esquecer...

Aloizio Jordão - Gostaria que você falasse um pouco do teu trabalho, do "Ventura"...

Mazinho Ventura - A concepção é uma coisa que remonta a 15 anos atrás, porque tem composições no CD que foram feitas há 15 anos atrás, mas a feitura, a pré-produção e produção levaram um ano e meio mais ou menos para acontecer por conta de várias questões... A produção eu fazia de forma intercalada, eu estava fazendo outros trabalhos. Depois, quando eu comecei a trabalhar mais efetivamente no CD, já na fase de produção propriamente, me aconteceu um acidente de percurso, houve um problema no estúdio e muita coisa que a gente havia gravado foi perdida, e como eu falei com você ainda agora a sensação primeira foi de como se tivesse pegado fogo na minha casa... E eu falei: "-Caramba, e agora?" Mas a minha reação seguinte já foi de outra forma, eu já comecei a ver a coisa de maneira positiva, comecei achar que muitas daquelas coisas que foram perdidas nós poderíamos fazer melhor, e, no final das contas, foi exatamente o que aconteceu... Alguns músicos que participaram e tiveram que voltar a gravar e gostaram disso - chegaram e disseram "- Mazinho, eu saí daqui naquele dia preocupado com isso, achei que não estava tão legal, hoje eu vou fazer mais legal, estou mais relex, conheço a música melhor..." - enfim, acabou sendo positiva esse refazer...

Aloizio Jordão - E as composições, algum novo trabalho em vista?

Mazinho Ventura - Não, eu estou querendo trabalhar ainda esse CD, acho que ainda tem muita cartada para jogar em cima desse CD. Já estou começando devagarinho a compor mais coisas, mas ainda não estou pensando num segundo não... Estou querendo trabalhar esse... Acho que ele precisa e merece ser mais trabalhado...

Aloizio Jordão - Você vai participar de um Festival de Jazz aqui em Niterói em maio próximo - você vai de "Ventura"?

Mazinho Ventura - Não sei se vai ser possível isso, porque a última informação que me trouxeram é que eu iria fazer um show dividindo com o Arthur (Maia), então não seria exatamente o meu show, seria o show do Arthur e ele me convidaria, então acredito que eu vou poder colocar do "Ventura" apenas umas inserções...

Aloizio Jordão - E o Alô Música certamente vai estar cobrindo esse Festival...e desde já quero agradecer a entrevista, certamente nossos leitores vão poder conhecer um pouco mais sobre essa pessoa maravilhosa que você é, sucesso pra você.

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