Quando o terreno é musical, trata-se de areia movediça, movimento das paixões, instância etérea com densidade transcendente a palavras explícitas, em forma de um grande jogo de imagens.
Possuímos uma diversidade enorme de música contida no sangue meio negro, índio, português e de todos os povos que vieram aqui habitar esta terra, tal a complexidade do som que encarna cada um de seus componentes, por essência ou contaminação, o que é próprio do ser.
A música brasileira tem a tradição da canção: um sistema musical em que há textos sonorizados a conduzir dos arranjos à interpretação do solista ou grupo vocal. Esta é a forma da paixão com que se analisa comumente o teor de uma música, nos tradicionais juízos de valor. No entanto, como essência, há no ser humano mais que o plaino abandonado em que se acometem as loucuras próprias da música que, se não são exploradas, não acontecem "em música".
Eis a grande confusão! Fala-se de música como canção – formato industrializado, com refrões pegajosos, para fidelizar e vender – e não como música em si: um terreno fértil em que quanto mais se colhe mais se semeia. Juntar canção e música ainda é um grande desafio a ser enfrentado, por força das tradições imperiosas sobre o público e co-mandado do óbvio de uma indústria que se preocupa em manter a fidelidade e as vendas. Raros são os exemplos da pura exploração musical, no terreno da canção. Instiga-se a paixão do público, este se vicia, as necessidades diminuem, caem os critérios de qualidade e o consumo continua – movimento cíclico que aparenta estar em decadência, pelo menos em termos de "investimento", por conta da pirataria.
A cantora, não somente cantora, Mônica Salmaso, com sua voz de intensidade única, vem traçando uma trajetória artística de grande exploração das possibilidades cancionais, sobretudo na adequação dos mais inspirados textos lítero-musicais ao imponente ambiente musical, fazendo música – e não somente canção, sem desmerecer "esta categoria".
Há muito "indiciada" como releitora de canções, como se seu trabalho fosse unicamente de escavar o tesouro da história de nossa gente com registros musicais, ou não, Mônica teve sua chegada ao mundo musical brasileiro da maneira imprevisível: com interações sutis, mas precisas, junto a grupos que procuravam na música a textura musical própria para as interpretações de suas canções\músicas.
Além de participações em discos de companheiros de sua época, como Eduardo Gudim, Mário Gil, entre outros, ela se uniu à paulista Orquestra Popular de Câmera onde, creio, sedimentou o que seria seu projeto musical. Junto a estes se configurava como mais um instrumento, vocal, obviamente, mas tendo em vista um aprendizado que lhe daria lugar especial em nossa não tradicional musica brasileira popular. Alguns lhe "indiciam", agora, de cantora lírica, "música de câmera" – como se fosse algo inatingível e não relevasse o grande manancial de historias populares, sertanejas, da gente que traduz em graça o espírito possível de ser representado culturalmente como "alma brasileira". Encontrou o veio inexplorado que a canção tanto se ressentia: um sistema musical onde interpreta histórias preciosas em cantos que se inserem no grande da musica.
Com três trabalhos independentes (Afro-Sambas, Trampolim e Voadeira) e três pelo selo Biscoito Fino (Iaiá, Noites de Gala, Samba de Rua e Nem 1 Ai), havendo se apresentado por todo Brasil e mundo afora, ela finalmente consegue se fazer decifrar no terreno "proposta artística" como uma exploradora de histórias musicadas, fluindo como um grande vento inspirador e criador de musica.
Vale falar que Afro-Sambas, em dueto com Paulo Belinatti é um dos mais primorosos "entranhamentos" sonoros sobre os temas de Baden Powel e Vinicius de Moraes, de tal perfeição é feita a construção da música - em harmonias e interpretação melódica; Trampolim, 2º trabalho, recebeu participações diversas, como Nana Vasconcelos e ainda ganhou prêmio internacional de mixagem (aspecto técnico que nos passaria despercebido não fosse a maestria do trabalho feito); Voadeira é resultante de escolha como melhor intérprete pelo prêmio Visa, na edição de intérpretes – cujo título muito bem enuncia sua proposta grandiosa, já que não se satisfaz "tão-somente" em dar o seu tom para as notas das canções: sopra, voa, vai-se com o próprio vento musical!
Iaiá traz primordialmente canções populares, sambas repletos de nuances da "malandragem" de uma alma que transforma em graça o pior dos episódios. Alias, Mônica faz-se também como uma grande contadora de histórias, introduzindo, em shows, o que motivou o compositor à canção. Não se faria outra a também grande intérprete de Chico Buarque, em Noites de Gala, Samba de Rua, em que o espírito do Noel Rosa encarnado dos anos 60 até hoje, o melhor cronista do cotidiano. Uma união de experiências grandiosas em conjunto com o fabuloso grupo Pau-Brasil, composto de parceiros desde o início de sua carreira.
No entanto, Mônica Salmaso trazia uma carta na manga que possivelmente foi seu aval para a interpretação de Chico Buarque: Nem 1 Ai foi gravado anteriormente, mas lançado em Agosto de 2008, após o lançamento do tão esperado CD e DVD sobre a obra de Chico.
É em Nem 1 Ai que Mônica se revela inteiramente em seu projeto musical, dando-se ao direito de articular comunicações com os diversos instrumentos que fazem o grupo Pau-Brasil, aqui com a participação do fabuloso pianista André Mehmari – que tal qual os outros, Teco Cardoso (seu marido, sopros), Paulo Belinatti (violão), Rodolfo Stroetter (baixo) e Ricardo Mosca (bateria), tem na veia o espírito da grande música. Um disco irretocável, onde músicos conversam em introduções livres dos formatos tradicionais "para tocar no rádio", onde a virtuose e explorada em natura, em canto, em verso, em harmonia, em arranjos, em completude. As canções são recheadas de referências, conversas entre canto e instrumentos, e estes entre si, em valorosíssimos multi-diálogos que não são menos que encantadores.
Não é à toa que Mônica Salmaso configura-se ainda como "cantora Cult", muito embora, já seja bastante popular no formato a que se propõe. Pode-se pensar num formato cancional para o futuro, um tempo em que a música em seu ambiente seja mais importante que um solo, uma imagem somente bonita a fazer gestos bonitos.
Conheça mais no site da Mônica Salmaso (http://www.monicasalmaso.mus.br/).
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