A vocalista do Vas, Azam Ali, o multiinstrumentista do Axiom of Choice, Loga Ramin Torkian, e o produtor/remixer Carmen Rizzo juntaram esforços para criar um som de amplitude global que o trio chama de música folk para o século XXI. Niyaz é o nome do grupo, e o seu disco de estréia, de mesmo nome, é hipnótico, arrebatador, dançante e consegue integrar o que a world music e a música eletrônica têm de melhor. Nada disso surpreende, já que os três artistas já tinham impressionantes carreiras individuais antes de formar o Niyaz.
Com a sua voz etérea e sedutora, uma voz que nos remete às mulheres de todos os séculos, da Europa ao Oriente Médio, Azam Ali é mais conhecida como a metade feminina da bem sucedida dupla Vas (com o percussionista Greg Ellis). Os seus vocais fascinantes já foram ouvidos em vários sucessos da tela, inclusive o blockbuster “Matrix: Revolutions”. Em 2002, Azam lançou um cd solo, “Portals of Grace”, e sobre ele, um entusiástico crítico da Billboard escreveu o seguinte: "É improvável que este ano saia outro cd com vocais tão fascinantes quanto ‘Portals of Grace’... Do início ao fim, a voz de Azam se revela um instrumento glorioso, inesquecível."
Loga Ramin Torkian, cujo grupo Axiom of Choice é aclamado pela crítica, é profundamente ligado à música de sua terra natal, o Irã. Instrumentista talentoso, Loga toca violão, saz (um tipo de alaúde turco), guitarviol elétrico (tipo de violão europeu do século XIV tocado com arco), alaúde persa tradicional e outros instrumentos turcos e curdos. Loga utiliza o repertório persa clássico, conhecido como radif, dentro de suas próprias composições.
Por sua vez, Carmen Rizzo já foi duas vezes indicado ao Grammy e tocou com uma extensa gama de artistas que inclui Seal, Alanis Morisette, Ryuichi Sakamoto, Khaled, Ekkkova, Cirque du Soleil e Paul Oakenfold.
Para Azam, Loga e Carmen, o Niyaz representa uma ruptura concreta com as formas de expressão artística com as quais estavam habituados. O seu disco de estréia costura de forma impecável 10 belos poemas de alguns dos maiores poetas sufi (seita mística muçulmana milenar) de todos os tempos com melodias acessíveis ao ouvinte contemporâneo. Azam, nascida no Irã, criada na Índia, canta tanto em farsi (a língua persa), quanto em urdu, uma língua falada por milhões na Índia e no Paquistão. Essa música apresenta sínteses culturais da mais alta categoria e constrói pontes entre séculos distantes, combinando instrumentos, ritmos e tonalidades ancestrais com sons absolutamente novos. Mixando texturas da música acústica tradicional com a música eletrônica, o Niyaz alcançou uma sintonia fina que abriu uma nova era de possibilidades artísticas para a música iraniana.
Carmen descreve o som do Niyaz como "reconfortante, morno e dark - nada muito reluzente." Com entusiasmo, ele diz que "Loga toca uns instrumentos bem interessantes e os vocais de Azam são super suaves. Esse ambiente musical é muito diferente do que o que eu estou acostumado, e fiquei feliz de ter sido tão bem recebido." As faixas refletem as múltiplas visões culturais e musicais que cada um desses artistas consagrados traz para o projeto, dos beats hipnóticos de "Allahi Allah" aos lamentos emocionados de Azam em "The Hunt" e os solos de Loga em "Arezou."
Azam e Loga já se conheciam há mais de uma década antes de se reunirem para esse disco. "Durante anos a gente conversou sobre fazer alguma coisa juntos," lembra Azam. "E agora é a hora certa."
"A gente queria criar uma música que fosse acessível tanto às comunidades cuja música nativa influenciou esse disco - persas, turcas e indianas - quanto ao público em geral," disse Loga. "Esperamos que essa música ultrapasse barreiras." Ele continua: "A nossa música tradicional é acústica. Nós temos uma forma muito reservada de fazer música, muito introvertida. A gente queria algo mais para fora nesse disco, e isso demandou um enfoque diferente." Com esse conceito em mente, eles convidaram Carmen Rizzo para participar desse mix inédito.
Trabalhando em conjunto, Carmen lembra que "a gente queria alguma coisa com estilo mas que, acima de tudo, respeitasse a música étnica e a música eletrônica. Azam e Loga vêm de um ambiente artístico mais orgânico, enquanto eu circulava mais em rodas de projetos de sonoridade mais contemporânea. A gente não queria deixar de lado nem os ouvintes de dance music nem os da world music tradicional mas, ao mesmo tempo, a gente queria fazer algo ousado."
"É certo que esse disco tem um alcance mais amplo do que qualquer coisa que eu e Loga já tenhamos feito", comenta Azam, "mas a gente sempre quis criar algo com substância. Mesmo sendo dance music, música para entretenimento, o disco traz energia e informação com um nível mais elevado."
Os poemas farsi que o Niyaz transformou em música nesse projeto foram escritos pelo reverenciado poeta do século XIII Jalaluddin Rumi. A arte poética urdu (traduzida pela própria Azam para as liner notes do disco) se origina na poesia mística de alto nível criada no subcontinente indiano.
"Esse tipo de poesia é freqüentemente usado na música clássica tradicional," observa Azam. "Mas as pessoas que não estão ligadas a essa tradição não conhecem a poesia. Então eu quis usá-la num contexto mais moderno."
"Eu mesma não sou sufi," explica Azam, "mas o sufismo é muito importante na cultura persa tradicional. Está no sangue, ele se torna parte de você." Ela afirma ainda que "a alma do disco está na exploração das identidades culturais e espirituais."
"A palavra 'Niyaz' significa necessidade, anseio tanto em farsi quanto em urdu," esclarece Azam. Loga e ela vêem esse anseio atuando em múltiplos níveis nas experiências pessoais. "O aspecto místico de todas as religiões me atrai muito", diz Azam, "e eu tenho a sensação de que ele foi perdido em muitas tradições, inclusive no cristianismo e no islamismo." Apesar de parecer paradoxal, Azam acha que o fato de viver na extremamente artificial Los Angeles a fez buscar mais a espiritualidade. “Todo mundo que eu conheço aqui busca muitas religiões diferentes”, observa. "Vivemos numa sociedade livre, então a gente pode pesquisar. E morar em Los Angeles me fez muito mais reflexiva. Numa cidade como essa, não há nada no ambiente urbano que te estimule espiritualmente, então você se torna muito introspectivo."
Para o Niyaz, entretanto, o conceito de comunidade e de terra natal está também revestido de um profundo sentimento de saudade, principalmente para os dois iranianos longe de seu país. Loga veio para os Estados Unidos aos 14 anos, e foi morar primeiro em Eugene, no Oregon, antes de se mudar para Los Angeles. Ele observa que "como muitos jovens iranianos-americanos, eu aprendi mais sobre a minha cultura depois que deixei o país."
A formação de Azam abrange três culturas diferentes: a persa, a indiana e a americana. "Com quatro anos, fui morar na cidadezinha onde cresci, Panchgani, no estado indiano de Maharashtra. Fica nas montanhas, é bonita, tranqüila e sem turistas. Lá havia uma grande comunidade persa."
"Essa nossa geração de persas que vive fora do Irã se sente meio sem-terra," afirma Azam. "Crescemos num ambiente em que a gente não se encaixa perfeitamente. E sempre temos a necessidade de nos sentir parte de algo maior." Ela afirma que o seu trabalho artístico preencheu essa lacuna. "Explorei as minhas próprias raízes culturais através da música - foi uma escolha consciente. Nos 18, 19 anos que moro aqui, só consegui essa sensação fazendo música."
Azam continua dizendo que ela espera que esse disco abra uma nova janela não apenas para "estrangeiros", sejam eles americanos, brasileiros ou japoneses, mas também para iranianos. "No meu tempo, não havia muitas opções em termos de música persa. Tinha a música tradicional, que é maravilhosa, mas tem um público limitado, ou um pop super vagabundo. Então há uma geração inteira de iranianos que não criaram uma relação com a sua própria música. E ainda não apareceu uma fusão musical bem sucedida como a criada pela diáspora indiana."
Felizmente, o impacto das jornadas musicais de Azam e Loga vem tendo reflexos até no Irã. "Apesar dos nossos cds solos não serem vendidos no Irã," Azam relata, "amigos nossos que vão lá com freqüência nos dizem que viram nossos discos em casas de amigos e parentes. E a gente fica muito feliz e orgulhoso de ter feito essa conexão."
“Niyaz”
na Six Degrees
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