CD & DVD :: Atemporal

Ana de Hollanda - "Um filme"

Por: Felipe Eugenio

"Num salão de Paris a linda moça, de olhar gris, toma café. Moça feliz."

É na urbes carioca que esse filme, com moça feliz e tudo, se passa. Não carece tanto de ser Europa, embora tenha tanto charme o ambiente criado no cinema noir de Ana de Hollanda quanto os encantos de uma boêmia literária oitocentista. Uma academia de poetas - felizmente vivos - que fazem hábito mais em botecos do que em cafés, passeiam brasileiros pelo disco da cantora. Trovam crônicas de uma Belle Époque tropical; hoje, de tão idílica, somente o tropical resta a essa époque. Da reunião de tantos artesãos da música, temo que fique incompreensível para alguns a presença de Vadico, Noel Rosa, Pedro Caetano, Cristóvão de Alencar(...) já que intitulei vivos ao filme - e nem culpo vossas sensibilidades, não; pois ainda não fomos doutrinados a perceber o caráter imortal de quem é artista. A obra é âncora d'alma do artista neste mundo, só mesmo o corpo "canta prá subir" ... Daí a boedrômia promovida pela também compositora Ana ter a riqueza que me proponho ciciar para vocês. Evitemos exaltações pois, neste momento, ela está cantando tesouros suspensos. O disco chama-se "Um Filme"; sua protagonista e diretora - e também linda moça feliz - é Ana de Hollanda. Mulher também co-responsável por todo e qualquer devaneio que o disco provoque na escrita minha. A começar pelo cello de Hugo Pilger ronronando denso e abraçando o poema de Paulo César Pinheiro (patrimônio tombado). Com burburinhos de ganzá tem-se o título "Marés". Eis essa música filha também de Maurício Carrilho, a trazer cálida a Ana em voz e carinhoso o Maurício em sua viola. Um dos méritos de "Um Filme" é a participação dos músicos-compositores no arranjo e execução das próprias canções. Guinga, Moacir Luz, Maurício Carrilho, Jards Macalé, Kléber Costa; honráveis poetas do "dedilhar de sons". De Paulo César Pinheiro e Sérgio Santos ainda temos a Moça-de-olhar-Gris a cantar um generoso samba: "Marca". Generoso pelo arranjo gostoso. Generoso pela poesia ali presente. Ana de Hollanda prova que seu tempero sambista arde em síncopes. O filho de César Faria confirma e faz coro: Paulinho da Viola, outro bem tratado por Ana de Hollanda em "Depois de Tanto Amor" , teve seu samba embalado no suave arranjo de Marco André (produtor do disco). Neste take de mais cadência nos batuques "Um Filme" de Ana explora a imagem dos totens dentre compositores. Noel Rosa, da Vila Isabel produtora de samba; e Vadico, da São Paulo produtora de café; eram homenageados ao centro da roda que alguns convidados formaram. Convivas estes que de tão animados e beberrões arriscaram um coro ao intimista canto de Ana - e deu certo! "Mais um samba Popular" ficou jocoso de tão noelesco seu arranjo. Mérito que cabe a Marco André, Alceu Maia, Robertinho Silva e Fernando Melino; poetas, respectivamente, especialistas em "poemar" violão, cavaquinho, percussão e piano. E a uma cantora sutil e vivaz, preenchendo o salão - ou seria o telão?. Ainda na mesma tomada, percebemos um maxixe a vir da varanda banhada pela prata da noite. São ecos do "Engomadinho". De outros dois grandes poetas - sempre disfarçados na alcunha de compositores -, Pedro Caetano e Claudionor Cruz (muito cantados por Orlando Silva, Silvio Caldas, Chico Viola, seus contemporâneos intérpretes desde a década de trinta, início da carreira de ambos. Carreira estendida até marchas de carnaval oriundas dos anos sessenta: "Jambete Sensação" como exemplo da sátira da dupla) aglutinados ao evento dos ilustres. Dentre outros poetas que a Jam Music (gravadora) leva para o disco da anfitriã Ana, está Aldir Blanc; portador de misteriosa maquineta que tira "polaróides do cotidiano". E, dizem, também faz seus versinhos por conta própria. Pois os ilustres freqüentadores do bar da Dona Maria, Aldir e Moacir Luz, têm sua cáustica canção no cristal vocal de Ana de Hollanda. Fato que instaura no sarau dos poetas-vivos o cinismo passional, sugerindo aos ouvintes boas idéias para artimanhas e melancolias soturnas lá pelas 11:47 da noite, essa é "Sem Maldade". Para sofisticar -redundância falar disso neste disco- Ana ainda sorve de Guinga as proezas míticas do violão virtuoso, na "Yes, Zé Manés", o blues escorre pela interpretação felina de Ana e se torna foz para o mar criativo reinante no ambiente. Aldir Blanc, também presente na criação desta última, assim como presente na película sonora da Buarque de Hollanda, faz sua figura no contubernáculo dos poetas todos parecer misteriosa pelas sombras em sua fronte. Lá vai o vascaíno: em cores acizentadas, chope amarelo na mão, parado ao canto da sala plena em sussurros - talvez, mas pouco provável, os convivas comentem sobre ele... Essa reunião social não é black-tie, entretanto seus convidados portam-se como se assim fosse. Clássicos e profundos, alguns muitos poetas-vivos de "Um Filme" se esbaldam de cerva com sardinha enquanto outros molham-se em uísque e sardinha. Bambas assim coexistem - além da poesia falada e tocada, algo metafísico - como sardinhas por exemplo - os amalgama. "Ele não sabe Dançar", é outro samba inflamado na fuzarqueira interpretação de Ana de Hollanda. Mulher airosa, toda-toda num vestido à la gafieira, pilheriando do par desastrado que a tira para dançar. O samba de A. Nogueira e Cristóvão Alencar é envolvido pela graça de sua voz afinada. Ana faz-se dama difícil quando o clarinete floreado de Rui Alvim pinça alguns galanteios. Maurício Carrilho (ao violão e arranjo) e Pedro Amorim (cavaquinho) ainda ensaiam gentilezas outras no beliscar de cordas. É a dama De Hollanda quem em meio ao tiroteio de acordes do sarau, por fim, destaca-se soberana. Fosse Chico César apenas um - e não tantos - seria possível monitora-lo no esculpir de canções. Ana de Hollanda colou em um dos muitos dele. O resultado foi a impossibilidade de levar para casa a obra sozinha. Teve como companhia a voz do compositor (desnecessário reafirmar aqui o conceito de poeta). O nome da música é "Que é que Há". Nela há o maroto violão sambista de Marco André e o duo vocal de Ana de Hollanda e Chico César. E isso é o que há mesmo, um simples que colore. Adentramos ao recôncavo onde Ana de Hollanda tece suas idéias em closes naturalistas e cheios de finura. No filme dos Poetas Vivos, a anfitriã do cenário único ousa também ser poeta para além do canto. Compositora, também se desconstrói ao edificar sobre melodias os seus versos tantos. Em "O Filme" exibi-se como poeta todo o artista que produz poesia. E desde quando aquelas canções que nos inebriam deixam de ser poesia? Eis uma especificação rica do vocábulo citado, e não ampliação desmedida do termo poeta - como podem muitos julgar. Kléber Costa, violinista na "Contra Mim", é parceiro desta pérola harmoniosa com Ana de Hollanda. Cheia de minúcias (fruto do duo violão e piano) e leves tons de valsa, essa canção leva consigo o mergulho num limbo de introspeção. Refletir. E, ao estar refletindo, desfraldar o a posteriori como pequeno frente ao já tido. Delírios poéticos... Ana de Hollanda permite evaporar para a música dela muitas imagens. Ao traduzidas em versos têm como resultado "Girando sob a Tempestade". Breve como uma borrasca vespertina, causa ao grão de sensibilidade que misteriosamente portamos certa nostalgia e solitude. Mas ela dirige esse filme com maestria. Entoando os doces brados de seus poetas amigos, Ana de Hollanda gera "Um Filme" com Jards Macalé. O resultado é a música necessariamente ser título de seu álbum dada a beleza mezzo samba, mezzo bossa, do violão de Jards com Ana. Tal como uma película com bom roteiro, essa música nos leva a segui-la sem sentir o tempo pesar. Somos arrastados pelas seqüências que cada estrofe cria até o refrão pleno em imponderabilidade. Provável ser daí o sentido otimista que nos passa a canção; a liberdade para o desenrolar da trama, a indefinição para seu fim. Seria essa uma boa opção para um filme ser de qualidade, não? Seguir os acertos de "Um Filme", modelo de disco elegante. Na obra de Ana, o elenco e produção vieram em primeiro, depois a trama foi uma autogestão de cada poeta presente - fosse com instrumento ou caneta numa das mãos, já que a outra segurava o copo cheio de idéias no formato líquido - uma das fórmulas para o tamanho sucesso. Espero que o frisson causado pelo "Um Filme" seja o máximo sensato, pois, certamente, a película que roda em nossas audições é passível de premiação. Todavia, jamais ganhará Oscar algum. Não poderia nem de longe ter isso no currículo. Já imaginaram todos esses poetas que bailaram com a dama Ana de Hollanda enquadrados no plano americano, recebendo honras do circão de Hollywood? Não tem tradução, diria Noel. No limite, levantariam prêmios em Gramado, Cannes, Berlim - cantos onde a arte carece ser original e sofisticada. Eis "Um Filme" que dispensa legendas por ter a trilha sonora ideal para os sonhos. Embarquei neste rubro sonho da Ana de Hollanda em filme preto & branco. E recomendo.

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